Velhice

Eu conheci uma bisavó só, a vó Iracema, e não muito. O que eu me lembro dela é das vezes no final de ano em que a família da minha mãe se juntava na casa da bisavó para os bisnetos todos ganharem as surpresas que a Tia Cely (filha da vó Iracema) preparava. A vó Iracema ficava sentada numa poltrona no meio do corredor o tempo todo, não falava muito, e nas vezes que a gente ia lá cumprimentar ela ela não fazia a menor noção de quem a gente era. Ela deve ter sido muito legal, porque minha mãe adorava ela (e ainda adora, na verdade). O banheiro da casa dela era cheio de corrimões e banquinhos. Eu nem lembro direito que idade eu tinha quando ela morreu.

Hoje foi o casamento do meu primo de segundo grau, o Ciro, e todo um lado da família da minha mãe se reuniu de novo para comemorar. A cerimônia foi muito bonita, numa capela barroca em que não cabia todo mundo, e depois teve a festa num salão que não tinha mesa direito para todos. A festa cheia de tias-avós cujo nome eu nunca aprendi direito e cuja relação entre si ainda é algo meio emaranhado para mim. E os primos distantes todos assustados de como nós todos crescemos, não é mesmo?

No fim da festa, depois que mãinha e pai voltaram pra Campinas, eu fiquei lá para pegar carona até meu apê com um dos primos. Enquanto esperava, interceptei uma conversa da Tia Zilda, avó do noivo, com um dos primos da minha mãe. Ela já tem 91 anos, e está num estágio em que não registra mais de cinco minutos de conversa, o que proporciona interessantes conversas em espirais como a que ela teve comigo:

"O Celso devia fazer que nem eu, ia me agradecer muito! Sabe o que eu fiz? Parei de jantar. Agora eu só como na janta o que eu como no café da manhã: um leite, um pão com manteiga… Você vai dormir muito mais leve, não sente mais aquele peso quando se deita. O João Alfredo também agora não janta, sabe por que? Porque eu não faço mais janta! Já faz um tempo que eu só como de noite o que eu como de manhã. Nada muito pesado, um café, um leite, um pão com manteiga. É por isso que eu estou com 91 anos e estou me sentindo muito bem, tem gente com a minha idade e que fica devagar, se sentindo pesado… Eu não. Parei de jantar e agora eu vou dormir muito mais leve, sem aquele peso de ter que digerir carne, arroz, feijão, batata. Sabe por quê? Porque eu parei de jantar. Melhor coisa que eu já fiz. Já faz uns dois anos. Eu parei de comer, mas também não precisa passar fome, pode comer aquilo que você come no café da manhã: um leite, um café, um pão com manteiga…"

E assim ia. Teve uma hora que eu tentei mudar de assunto, perguntei para ela se ela continuava pintando.

"Ah, continuo, tanto que eu dei de presente para os noivos um dos meus quadros, era de um… que que era mesmo? Não lembro. Mas eles gostaram muito. E eu continuo pintando, é algo que eu gosto muito mesmo. Eu sento lá e esqueço da vida… Às vezes eu começo a pintar e esqueço até de comer! E olha que eu parei de jantar. Parei. Agora eu só como de noite o que eu como no café da manhã: pão, leite, café…"

Já faz um tempo que eu tenho um projeto de entrevistar minhas avós, que devem ter um monte de história para contar sobre a vida delas e dos meus tios (e pai e mãe). Tinha que criar vergonha e fazer logo.

Enquanto isso, eu continuo firme e forte no meu projeto de viver 120 anos.

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