20110410g

21 km corridos

Eu queria entrar na Runner’s World, que estava pra ser lançada. Fui chamado pra uma entrevista com o diretor de arte e o diretor de redação. Depois de uns 15 minutos de conversa, o diretor de redação, Sérgio Xavier, me pergunta: “você corre?”. E, mesmo querendo muito a vaga, não tive opção além de responder “não corro, mas pedalo”. Ele respondeu com aquele olhar de quem preferia escolher quem corresse, e eu completei: “mas posso começar a correr!”.

A vaga deu certo, e eu virei editor de arte da Runner’s. E, até para compreender melhor os meus leitores – e porque, really, não dá pra evitar quando você começa a trabalhar com isso – eu comecei a correr. Porcamente no começo, depois mais pra brincar com os tênis e equipamento nos quais investi. Mas, gradualmente, fui viciando. E eu, que preferia fazer natação pra não ter que sentir o suor no corpo, comecei a ansiar pela suadeira da corrida. Corri uma prova de 5k, sobrevivi, daí segui para uma de 10k e cheguei inteiro.

Meio teimoso

A primeira vez que eu corri os 21,1 km da meia-maratona foi na época do segundo transplante da Ana Paula. Nesse tipo de situação cabeluda, cada um tenta ajudar como pode; minha mãe faz propósitos e para de comer tipos de alimentos, o Danilo doou metade do fígado… Eu, inspirado por um artigo da Runner’s americana, resolvi correr 21 km pra reunir good vibes pra Ana Paula e dar a medalha pra ela de presente. É, cada um faz o que pode.

E eu já tinha corrido prova de 10k, corrido 15 km em treino, não havia de ser tão difícil assim. Fui fazer a Meia Maratona da Corpore com a cara e a coragem – e três pacotinhos de gel energético Gu que eu nunca tinha experimentado antes.

Se matando na primeira meia.

A sorte foi que meu bucho não é sensível e eu não tive nenhum revertério por conta dos Gu. Porque todo o resto foi um exemplo do que o corredor cabeça-dura faz. Nos 12 km eu já estava repensando a prova. Nos 15, eu já estava repensando meu emprego na revista. Depois dos 18, eu seguia somente pela mais pura teimosia. Cruzei a linha de chegada em 2 horas e 32 minutos, mal me aguentando nas pernas, achando aquilo tudo um absurdo, uma insanidade. Fiquei os próximos três dias andando que nem pinguim, sem conseguir subir escadas. Quando dei a medalha de presente pra Ana Paula, ela me disse “Mas Marcio, pra mim?! Foi mó difícil pra você ganhar essa medalha!”. E eu olhei pra cama de hospital onde ela estava, os soros, os curativos, e respondi “Fumps, o que você tá encarando é muito mais.”

Meio carioca

A ocasião da minha segunda meia foi bem mais feliz, em todos os sentidos. A Runner’s decidiu fazer uma equipe oficial para a Meia do Rio (e vender as vagas pra equipe, claro). De garotos-propaganda, nós, funcionários voluntários. Eu, que andava levando o treinamento meio nas coxas, resolvi levar a sério. O pessoal da Run&Fun forneceu planilhas semanais para todos os inscritos na equipe – e esse esquema de treino à distância se revelou adequadíssimo a minha rotina editorial cheia de surpresas.

Passei três meses fazendo muita esteira, e esticando os longos a cada final de semana. Eu não queria fazer feio; afinal, o dia da prova era 17 de julho, meu aniversário.

No sábado, a redação toda pegou avião pro Rio, enfrentou a sopa atmosférica da cidade pra se instalar no hotel, e coletivamente se alegrou de não depender das regatinhas dos kits para correr: além de horrorosas, vieram todas em tamanho PP. Madrugada seguinte, estavam todos de camiseta laranja, às cinco da matina, tomando café da manhã. Encaramos o breu e o frio oceânico enquanto aguardávamos a largada, na Barra. E, quando a Globo deixou, nos pusemos a correr.

Correndo (quase) do Leme ao Pontal.

Antonio Prata (que, inclusive, estava correndo na nossa equipe) já escreveu uma vez que chega um ponto que a gente vira uma maquininha de correr, e é verdade. Depois dos primeiros cinco quilômetros e do primeiro Gu, o ritmo se estabelece, e você pode prestar atenção na paisagem (ê, mar!), nas pessoas (essas cariocas parecem almofadas de lycra correndo com meias de compressão) e consegue até fazer multiplicações complexas pra tentar descobrir qual deverá ser o seu tempo. Nessas descobri que ia conseguir terminar em pouco mais de duas horas. Tentei dar um gás nos quilômetros finais pra tentar bater as duas horas, mas não adiantou. 21k em 2h9min. A redação toda numa alegria coletiva, Dani Hirsch chorando por terminar sua primeira meia, cada um comemorando o tempo do outro. Eu tendo que entrar no módulo editor logo pra garantir que as fotos da revista iam sair. Depois, de volta ao hotel, um almoço gordo e merecido, e a vontade de bater os 120 min.

Meio acelerado

Saí da Abril em setembro, mas resolvi levar os bons hábitos comigo e continuar treinando. Pra falar a verdade, passei a treinar com mais afinco – até porque a endorfina dos treinos compensava muito os estresses da agência em que eu fui parar. A agência se foi, o ano virou, outra agência veio, e eu continuei correndo. E, como treinar sem meta não tem graça, marquei de correr na Meia Maratona da Corpore, no começo de abril.

Pra variar, quando foi chegando a data, o trabalho começou a me soterrar e eu acabei não conseguindo treinar como gostaria. Mas eu tinha meses de treinamento à risca na bagagem, então pior do que eu já tinha feito não ia ser, com certeza. E energia de sobra: jantei batata assada nas noites antes da prova pra ter reserva de energia (conselho da nutricionista). E tinha uma arma secreta: pela primeira vez, eu preparei uma playlist de músicas empolgantes para ouvir durante a corrida.

A prova saía e terminava na USP. Cheguei lá cedinho cedinho, não me sentindo muito preparado, mais conformado em terminar os 21km do que em bater o recorde. Peguei número e chip, ganhei uma regata da assessoria de corrida, e fui me alongar com os outros corredores. Me distraí tentando inultimente alcançar os dedos do pé e observando os corredores todos, e quando eu vi já era a hora da largada. Ao contrário da corrida no Rio, por conta disso meu tempo de espera foi quase zero – quando eu cheguei na concentração, o povo já estava saindo.

Logo no primeiro copo d’água eu fui tentar beber correndo, engasguei furiosamente e quase que fui parar na ambulância. Daí pra frente, eu resolvi que era mais válido parar um pouquinho pra beber água nos postos de hidratação do que virar estatística de acidentes fatais em corridas.

Pé na tábua!

O iPhone não só me proporcionava músicas empolgantes, mas também media a distância corrida e o ritmo do último quilômetro. Assim, eu fui mantendo a velocidade que eu precisava e, quanto mais eu avançava, mais foi ficando claro que eu ia conseguir, sim, bater as duas horas. E sem sofrimento: as pernas funcionavam sem reclamar um tiquinho. Os treinadores da Run&Fun vinham volta e meia conferir se estava tudo bem, e eu dizia que sim, um gel, dois, três… Nos últimos quilômetros o recorde já era certeza. Na reta final o Mario Sergio, mentor da assessoria, estava na beira da pista pra parabenizar quem chegava, e tudo que eu conseguia gritar de volta pra ele, vendo o cronômetro oficial da prova, era “MENOS DE 2 HORAS!!!”.

Dito e feito: tempo total, 1h56min. E inteirinho.

De volta à tenda da R&F, os parabéns dos treinadores, a alegria do Mario Sergio, e a satisfação de reencontrar o Serginho, diretor de redação da Runner’s, e compartilhar o recorde. E nenhum descanso para quem corre: próxima meta, maratona.

Eu e Sergio Xavier, diretor de redação da Runner's World, comemorando dois recordes pessoais.

Eu e Daniel, meu treinador à distância.

Eu e Mario Sergio, guru da Run & Fun

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