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Podcasts: Radio Googoo

Ano passado eu estava participando de uma discussão com o pessoal da Runner’s World sobre qual seria o futuro dos equipamentos de corrida. Uma hora começamos a falar de esteiras, e, de ideia em ideia, eu sugeri: “ah, um sensor vai poder detectar o movimento do corredor, descobrir a velocidade em que ele está se movendo e ajustar a velocidade da esteira de acordo”. Um colega na hora rebateu “Não, a gente tá falando de coisas que podem acontecer num futuro próximo, tipo em até dez anos, nada tão futurista assim.” Minha réplica: “isso não é futurista, loguinho vai sair um videogame que já detecta o movimento do corpo no lugar dos controles”. O pessoal olhou meio incrédulo.

Claro que, na timeline exponencial em que vivemos, pensar que ano passado as pessoas não sabiam que o Kinect estava pra ser lançado, a ponto de pensar que nada do gênero aconteceria em menos de dez anos, parece um absurdo. Mas é verdade. Eu sabia e ninguém mais ao redor estava sabendo. A razão: podcasts.

Já faz uns cinco anos que eu peguei o hábito de ouvir podcasts – a partir do momento em que eu comprei um iPod Classic e o mundo da iTunes Store se abriu para mim. Meu login é da MacStore britânica, e, fuçando um pouco, eu descobri os podcasts do Guardian. Eu conhecia pessoalmente o host de um, gostava do assunto do outro, e assim aos poucos viciei para nunca mais parar. Até porque eles compensam por outro hábito anterior. A única tristeza dos meus hábitos de ciclista é que toda a leitura que em tempos idos eu fazia no ônibus se tornou impossível sobre duas rodas. Mas, com podcasts, o tempo pedalando se torna bom pro corpo e pros neurônios – eu me locomovo e vou ficando informado sobre todos os assuntos que me interessam. Por mais obscuros que sejam.

Claro que ouvir uma rádio também seria uma opção. Mas, primeiro, meu interesse não é ouvir músicas – eu já tenho zilhões no supracitado iPod que me agradam muito mais do que qualquer coisa da programação das FMs (aliás, RIP, Rádio Eldorado). E o que eu gosto não toca em rádio anyway. Depois, que os assuntos, digamos, noticiosos que me interessam também não estão disponíveis nas ondas do meu dial. Finalmente, eu já não tenho mais a capacidade de acompanhar seja o que for no horário ditado pelos programadores (nota: assunto pra outro post). A liberdade de baixar os programas que eu quero pela manhã e depois ir ouvindo-os ao longo do dia, enquanto eu pedalo, malho, corro, almoço ou mesmo escovo os dentes é uma das maiores conquistas que a internê me permitiu. Tanta coisa interessante pronta pra ser ouvida!

Sexualidade

  • Savage Lovecast. Um dia Thompson Loyola compartilhou o vídeo abaixo no Facebook, com a citação “Uma sauna gay é basicamente um puteiro tocado por voluntários”. Achei a sacada boa, fui assistir o vídeo, depois quis saber mais sobre quem era o fulano, e assim descobri Dan Savage, sua coluna de conselho sentimental/sexual, Savage Love, e a versão falada dessa coluna, o Savage Lovecast. Gay, casado, com filho e numa relação aberta, toda semana ele responde às perguntas que os ouvintes deixam gravadas no telefone, com sinceridade e falta de rodeios quase desconcertantes. BDSM, poligamia, fetiches por tortas ou por fraldas, doenças, orgasmos, pinto grande, pinto pequeno, não há assunto que aqui não mereça ser tratado com interesse. Esse é o podcast que eu aguardo com maior expectativa toda semana, e posso tranquilamente dizer que, depois de quatro anos ouvindo-o nonstop, Dan Savage se tornou um dos meus ídolos, e abriu muito minha cabeça com relação a vários assuntos. Além de tudo ele fundou o It Gets Better Project, em que gays gravam vídeos para jovens gayzinhos dizendo que a vida melhora quando você vira gente grande. Só por isso ele merece que se ouça o programa dele toda terça.

Notícias

  • Tech Weekly. O programa de tecnologia do Guardian. Aleks Krotoski & co. trazem toda semana as últimas novidades da internet, videogames e outras coisas relacionadas a computadores em geral. Tendem a ficar bastante em discussões mais conceituais e focam em mídias sociais, startups etc.
  • Bits – Tech Talk. E esse é o programa de tecnologia entre os vários podcasts do New York Times. Aqui, eles focam mais no lado “hardware” da tecnologia: fazem resenha de aparelhos de som, computadores, máquinas fotográficas, trazem notícias, e oferecem toda semana a “dica da semana”, revelando funções em de programas que a maioria das pessoas deixa passar batido.
  • Media Talk. No Brasil não se considera que as notícias dos meios de comunicação interessam a ninguém além das pessoas dos meios de comunicação, mas lá fora é diferente. Vários jornais têm uma seção sobre mídia, falando sobre quem entra, quem sai, vendas, audiência, lançamentos, cancelamentos… O mais próximo que a gente tem aqui é o caderno de TV (significa). Apesar de eu não ter acesso a nada da Inglaterra mais além dos sites dos jornais, é curiosamente interessante ouvir sobre os comunicadores lá.

História

  • BBC History Magazine. Esse é o podcast mensal da revista de história mais popular do Reino Unido (segundo eles mesmos). A fórmula é bem o que você esperaria nesse caso: baseado na pauta da edição que está nas bancas, o programa apresenta entrevistas com os acadêmicos especialistas no assunto. A variedade dos temas é bem grande, e o tratamento deles, longo o suficiente pra não ficar superficial, e curto o suficiente pra não cansar.
  • Hardcore History. O nome já deixa bem claro qual é o propósito do programa: recontar os fatos históricos com os detalhes sórdidos que os professores não contam na escola. A viagem de Magalhães, o extermínio dos apaches, a história da escravidão e a Segunda Guerra na frente russa são alguns dos assuntos que o apresentador, Dan Carlin, já explorou nesse programa. A ideia é colocar o ouvinte numa posição quase de participante das cenas, dando descrições às vezes até agressivas, em primeira pessoa, dos acontecimentos. Os temas são tratados com muita profundidade, provavelmente a razão pela qual ele é quase um devezenquandário (cada episódio leva mais de um mês para sair). Exemplo: agora estão terminando uma série sobre a queda da República romana, que já tem cinco episódios de uma hora e meia cada um e acabou de chegar no Júlio César. O próximo episódio será o último da série, e terá o tamanho que precisar ter para contar o final da história direito – estou esperando algo em torno de três horas e meia…
  • In Our Time. Esse programa da BBC é um bom meio-termo: quarenta minutos de entrevistas com dois especialistas num assunto histórico. O mais surpreendente é a variedade e o inusitado dos temas de cada programa: livre arbítrio, a universidade medieval, Cleópatra, Maimônides, unicórnios… a gente aprende muita coisa que não esperava aprender nesse programa.

Outras Humanidades:

  • Freakonomics Radio. Os livros Freakonomics e Superfreakonomics se dedicaram revelar “o lado oculto de tudo”, aplicando o princípio de Economia de incentivo e recompensa para explicar fatos da vida, mesmo que revele verdades politicamente incorretas. Depois de um tempo, com um blog já bombando, os autores começaram a produzir um podcast. Não demorou muito e ele deixou de lado o foco nos princípios econômicos, mas continua sendo uma boa fonte de curiosidades sobre a vida moderna.
  • Law in Action. Antes de conhecer o Felipe, eu jamais pensaria que Direito poderia ser um assunto interessante para quem não é devogado. Mas daí fui apresentado a conceitos como lesão enorme, e descobri que Direito pode ser bem instigante – mesmo quando os advogados não o são. Esse é outro podcast da BBC que eu passei a ouvir recentemente, em que tópicos do direito britânico são tratados por meia hora. Não deveria ser, mas é bastante lúdico.
  • Legal Lad. Curtinho e direto ao ponto, o Legal Lad explica em cinco minutos princípios jurídicos que estão em pauta no momento. Muitas vezes são juridiquezas que só se aplicam às leis dos Estados Unidos, mas mesmo assim é interessante de se conhecer.

Storytelling

  • This American Life. Documentários apenas em áudio, quem diria que isso pode dar certo? Mas dá. E muito. Apesar do título, esse podcast não é americanoide. Baseado num tema, os jornalistas que produzem esse programa revelam histórias interessantíssimas e inusitadas: o que acontece quando um casal cria uma chimpanzé como se fosse uma criança, a descoberta da fórmula da Coca-Cola, o soldado que aguardou 17 anos para se casar com a mulher que conheceu durante a guerra, e muitos outros. Cada semana, uma história mais incrível que a outra. Imperdível.
  • The Moth. Stand-up sem comediantes. A premissa aqui é que pessoas subam no palco e contem histórias reais, sem anotações. Alguns são profissionais, outros amadores, mas as histórias são sempre envolventes – e nem sempre engraçadas. Semana passada eu quase me debulhei em lágrimas enquanto pedalava de volta para casa, ouvindo um cara contar como era tentar escrever piadas em seu emprego enquanto a filha de 2 anos morria de câncer.

Cultura

  • How Did This Get Made? Existem filmes que são tão, tão ruins, que você fica se perguntando como é que alguém topou produzi-los. Transformaram essa indagação numa mesa-redonda com três humoristas e tchans, o mundo ganhou um podcast de cinema. Esse é um programa que se dedica a discutir os piores filmes que já agraciaram as telas e espremer da desgraça de sua existência algum divertimento. Até agora já foram dissecados Burlesque, Battle Field: Earth, The Last Airbender, Season of the Witch, Drive Angry… Os três apresentadores são tão espirituosos que o programa é entertaining de se ouvir mesmo quando não se viu o filme.
  • Slate Culture Gabfest. Os podcasts da Slate seguem o mesmo formato: três editores do site discutem três temas relevantes da última semana, e encerram com uma rodada de recomendações para a semana seguinte. Neste programa, os editores tratam das estreias culturais de todos os meios: novos filmes, novos programas de TV, novos livros, até os novos hits do Youtube. É comum eu ficar com uma sensação de de jà vu quando vejo a crítica no jornal de algum filme que vai estrear – o povo do Culture Gabfest já tratou desse filme semanas e semanas antes.
  • Times Talks. Esse podcast não tem periodicidade definida. Volta e meia o New York Times promove eventos cheios de figurões das artes, e quando isso acontece o público ganha de presente episódios com longas entrevistas feitas por editores do jornal, ao vivo, no auditório do NYT. No fim do programa eles liberam uns 15 minutos para que as pessoas da plateia façam perguntas; quando o entrevistado é um músico, é comum rolar uma palhinha antes ou depois da entrevista. Entre os entrevistados anteriores estão Annie Lennox, Sarah McLachlan, Guillermo Del Toro, Stephen King, Natalie Portman, Helen Mirren, Nancy Pelosi, o elenco de Lost…

Política

  • Common Sense. Como o Dan Carlin, o responsável pelo Hardcore History, demora demais para lançar episódios novos do podcast de história, ele criou um outro podcast-irmão, Common Sense, para que ele não passasse tanto tempo sumido. Claramente no mesmo estilo dos programas de talk radio do hemisfério norte, aqui Mr. Carlin solta o verbo por uma hora a respeito dos assuntos políticos dos últimos 15 dias. Sem medo de sair do senso-comum da imprensa dos EUA: ele afirma com todas as letras que o sistema bipartidário dos EUA não funciona e que se gasta dinheiro demais com o exército, por exemplo.
  • Slate Political Gabfest. Eu estou muito mais por dentro da política nos EUA do que da do Brasil.  Os políticos lá provavelmente não são muito melhores do que os daqui, mas com certeza o jornalismo político lá é muuuuito mais bacana.  As análises que os editores da Slate fazem dos fatos políticos da semana, por exemplo, consegue ser séria, profunda e até engraçada às vezes – e é sempre inteligente. Queria que houvesse algo assim por aqui, quem sabe com isso os políticos também melhorassem.
  • The Rachel Maddow Show. É uma pena que eu não me lembro mais como foi que eu descobri o programa da Rachel Maddow, porque ela também se tornou minha “ídala”. O telejornal diário dela na MSNBC trata de fatos mundiais também, mas tem na política seu pilar principal. Ela encontra maneiras de explicar com clareza as coisas mais cabeludas (a cobertura dela da desgraceira no Japão e da invasão da Líbia são primorosas) e, com irreverência, aponta as hipocrisias da política conservadora nos EUA. Cada vez que eu vejo ela entrevistar um político com quem ela discorda eu solto suspiros de inveja: essa capacidade de descadeirar as figuras no poder (com toda educação) e ainda ter prestígio para eles se submeterem a isso faz muita falta entre nossos políticos acima de tudo e de todos.

2 Responses to “Podcasts: Radio Googoo”

  1. nrodrigues

    Ainda não acordei direito e do atropelado por seu post. Adorei não só a coletânea de sugestões de podcasts mas, principalmente, a análise que você fez deles. Você dorme? Rs Abraço, meu caro.

    Responder
  2. Marcio Caparica

    Durmo menos do que deveria, mas esse post em particular demorou duas semanas pra ficar pronto… Escrever as análises levou tempo, e tive até que deixar alguns de fora porque não rendiam comentários decentes. Obrigado pela visita! :)

    Responder

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