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Grandes pequenas coisas


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Pinheirinhos, que alegria

Pinheirinhos, que alegria

Uma coisa pequena, na situação indevida, pode ganhar uma importância enorme. O cancioneiro sertanejo tem o maior exemplo disso: um fio de cabelo preso num paletó faz o varão ficar todo chorão lembrando de quando a cabocra usou o paletó dele pra enxugar o suor que escorria entre suas dobras depois do amor vivido.

Numa viagem de bicicleta, um furo invisível causa um transtorno sem par. Como a tecnologia ainda não desenvolveu algum sistema de roda que não dependa de bexigas de borracha eu ainda não sei, claramente a ciência está muito mais interessada em criar curas contra a calvície ou impotência do que inventar um pneu que continue rodando do mesmo jeito mesmo quando você atravessa um prego por ele.

Depois de uma noite tentando não pensar na roda que me esperava vazia atrás do hotel, a manhã chegou e não teve jeito, eu precisava dar uma solução naquilo. Já estava me conformando com pedir para Lewis andar junto comigo o dia inteiro, e ter que parar a cada dez quilômetros para encher o pneu com a bomba dele. Mas eis que a providência interfere, Lewis revira suas mil e uma ferramentas, e lá encontra mais uma espátula intacta com a qual tentar tirar o pneu teimoso da roda. Com aquela boa-vontade que só os verdadeiramente tarados por bicicletas têm ele pegou a roda vazia e, devagarinho, usando a espátula e uma alavanca em seu canivete, ele conseguiu soltar o pneu e tirar a câmara furada. Colocou a câmara nova que eu tinha no meu equipamento, encheu o pneu o melhor que dava com nossas bombas pequeninas, e assim estávamos os dois prontos para mais um dia na nossa contagem regressiva até o oceano.

Mas é claro que a inocência, depois de perdida, nunca mais volta, e eu passei o dia na paranoia de que os pneus iam furar mais uma vez e dessa vez eu estaria fudido de vez, sem câmara extra, sem espátula, sem paciência e sem esperança. Qualquer pedrinha que ficava presa entre as ranhuras do pneu me causava um sobressalto, e eu tinha que parar e tirar a pedra incômoda, rezando para que não fosse um espinho. Demora muito tempo para se recuperar a fé nos seus pneus; eu mal conseguia imaginar como tinha percorrido 6 mil quilômetros antes sem conferir as rodas a cada 30 minutos.

Pôr do sol na estrada deserta

Pôr do sol na estrada deserta

Logo pela manhã escalamos a montanha do dia, e depois de atravessar o Ochoco Pass só restava descida e planície. Tirando a inspeção constante de pneus, o dia passou sem incidentes, o que liberou a mente para a especulação a respeito do nosso próximo host do WarmShowers.

O nome da pessoa no site era Gale Helene; o texto no perfil do site dizia “Eu e meu marido gostamos de viajar de bicicleta…” etc etc etc. Qual não foi minha surpresa quando liguei para pedir pra ficar na casa da pessoa, e Gale é um homem? Mas como assim? Será que é um casal gay? Será que o nome está errado? Não, ele mesmo disse com sua voz grave, “I’m Gale, we’re waiting for you!”. Lewis e eu ficamos brincando com a possibilidade de ficarmos hospedados numa casa digna do The New Normal, mas a realidade era bem menos emocionante: o marido realmente se chamava Gale, a esposa se chama Helene, ela tinha escrito o perfil e achou que não tinha demais colocar o nome como Gale Helene ao invés de Gale and Helene.

Chegamos na casa deles, perto da saída da cidade de Redmond, logo antes de escurecer. Redmond já é uma cidade digna, com 23,5 mil habitantes; minha alegria ao voltar a lidar com semáforos era sem fim. Fomos superbem recebidos pelos dois, que nos avisaram que a gente teria que acampar no quintal porque o pai do Gale estava na casa e ocupava o quarto de hóspedes. Gale é chef e vendedor de carros, fala pelos cotovelos, tanto que mal conseguimos ouvir a voz da esposa. Ao contrário da maioria dos nossos hosts, que desenvolveram um interesse por pedalar depois de velhos, os dois pedalam desde jovens, se conheceram por conta do ciclismo, pedalaram 300 km para se casarem em Las Vegas, e ao longo dos últimos 20 e tantos anos já fizeram várias viagens juntos. A única saia justa aconteceu quando eu e Lewis, já limpinhos, percebemos que os dois não tinham a intenção de preparar jantar pra gente. A culpa é nossa, que estamos muito mal-acostumados com os hosts anteriores. Mas a essa altura já não tinha mais restaurante aberto; Gale, muito gentilmente, revirou a geladeira e ofereceu o que achou de sobra por lá. Felizmente isso não impediu que a conversa desenrolasse e a gente ouvisse as histórias das várias viagens que o casal fez junto.

Quando chegou a hora de dormir, saímos para o quintal onde já começava a fazer frio. E daí mais uma coisinha pequena deu pra criar enormes problemas. O zíper do meu saco de dormir começou a dar defeito, pulando dentes do fechecler e, assim, abrindo a qualquer movimento. Fechado, o saco de dormir é um casulo quentinho não importa a friaca que esteja; com vãos no zíper, ele não passa de um cobertor desajeitado e não muito eficiente. Fechei e refechei o zíper no escuro, sentindo no tato os insucessos em lacrar o meu casulo, cujo zíper depois de um tempo nem fechava mais por mais que passasse de uma ponta a outra do fechecler. E foi assim que, à uma da madrugada, lá estava eu de lanterna na testa, tirando e recolocando o zíper, até conseguir fechar a bagaça e me deitar o mais imóvel possível, sabendo que o que restava de conforto naquela noite dependia de conter meus braços e pernas para que eles não forçassem o zíper. Nessa altura do campeonato já não vale mais comprar outro saco de dormir: só me restava torcer para que não precisasse mais dormir dentro da barraca, porque uma vez que o zíper se abrisse, não fecharia mais.

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