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Abominação infiltrada


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Goodbye, Heidi

Foto de despedida com a Heidi

Penúltimo dia, prestes a retornar à civilização, e meu objetivo de ver um urso (de longe) obviamente não seria realizado. Cervos, bisões, tartarugas, cobras, esquilos, guaxinins, gambás, até um lobo, mas nenhum urso. Grande parte deles morta na beira da estrada. Nenhum urso, vivo ou morto.

A rota seria toda em leve descida em direção a Eugene, a primeira cidade realmente grande e decente desde que evitamos de passar pelo centro de St. Louis, no Missouri. Mas, como todo bom final de temporada, esse episódio teria o retorno de um personagem em participação especial: Amy, que encontramos no parque de Teton, tinha terminado de andar de motoca pelas estradas da costa oeste e tinha voltado pra casa, pertinho de Eugene.

Gatinho

Gatinho no café da manhã

Dissemos adeus a Heidi em sua casa na beira da floresta e partimos cedo rumo à civilização. A manhã transcorreu sem grandes acontecimentos, almoçamos à uma da tarde e seguimos caminho, tentando chegar ao pub onde Amy nos esperava o quanto antes. Meu coração urbanoide começou a bater mais forte quando chegamos em Springfield, uma cidade já grande que se conurbou com Eugene (conurbação, que alegria!). Quase chorei de emoção quando comecei a ter que desviar de ônibus: transporte público! Aleluia! Quando chegamos em Eugene já era três e pouco da tarde, e nós nos perdemos um tanto para conseguir achar o pub onde Amy esperava por nós, mas mesmo isso me trazia uma satisfação interna. Eu estava numa cidade em que era possível se perder.

Quando chegamos, Amy estava lá, usando o pub de escritório para terminar um frila de diagramação. Compramos bebidas e começamos a trocar as histórias das viagens que ambas as partes tinham feito nas últimas semanas, ela contando de suas aventuras de moto, nós respondendo com nossas histórias pedalantes. Bateu a fome, Amy nos levou pra comer numa feira que acontece todo sábado numa praça da cidade.

Amy in the park

Sábado no parque com Amy: Let The Sun Shine In

Eugene é uma cidade universitária que preservou o espírito hippie dos anos 1960. Dá pra sentir na atmosfera relax da cidade, e essa vibe fica ainda mais intensa na feira. Feiras de artesanato já são o refúgio dos ripongos em qualquer lugar do mundo, mas lá em Eugene a coisa pega pesado: você encontra bancas vendendo camisetas tie-die, todas as comidas são feitas com ingredientes orgânicos e locais, os acessórios “legitimamente” indígenas estão por toda parte. Uma banda de sessentões providenciava música ao vivo – rock dos anos 60, claro – com uma competência impressionante; a vovozinha vocalista fazia uma performance digna de Janis Joplin se ela tivesse chegado à terceira idade. Um casal jovenzinho de dreadlocks vendia bambolês, e para divulgar seu produto dançavam lentamente ao som do rock psicodélico, rodando seus aros com um braço, outro, com a cintura, com o pescoço, com uma perna…

Continuamos conversando e comendo, enquanto assistíamos à fauna local e relaxávamos ao sol. Minha bicicleta, encostada numa árvore, chamava a costumeira atenção dos transeuntes, que vinham perguntar pra gente a razão daquilo. Com orgulho, respondíamos que estávamos a um dia do fim da viagem. Um rapaz cabeludo distraidamente se encarapitou na árvore da minha bike, e ficou lá pendurado de ponta cabeça. Meu espírito paranoico ficou pensando que se esse chapado caísse em cima da minha intrépida magrela e danificasse alguma coisa, eu faria ele me carregar até o Pacífico nas costas.

Às seis da tarde, com certa preguiça, nos despedimos de Amy para rodar mais 22 km até o nosso derradeiro WarmShowers. Enquanto eu passava pinheiros e mais pinheiros na beira da estrada, tinha pensamentos agridoces de que aquele seria o último pôr-do-sol que eu veria na estrada. Pouco antes das sete horas, chegávamos em Veneta, na casa de Paul e Barbara.

Se não consegui ver ursos, pelo menos esse último host me propiciou ver de perto uma outra espécie nativa dos EUA: os mórmons. O pouco conhecimento que eu tenho dessa religião vem de fontes tendenciosas (porém ótimas) como o musical The Book of Mormon e o colunista Dan Savage: como eles acreditam que judeus vieram para a América na época de Jesus e deixaram uma tábua de ouro com um terceiro evangelho enterrada (“Você sabia que a Bíblia na verdade é uma trilogia, que nem Star Wars?”, cantam no musical). Como em 1800 e qualquer coisa Joseph Smith encontrou a tábua e a traduziu, mas não deixou ninguém mais vê-la. Como eles usam cuecas encantadas. Como até 1960 e qualquer coisa Deus não gostava de negros, mas daí mudou de ideia. Eu estava genuinamente interessado em ouvir a história do ponto de vista deles.

Paul tem uma história bem interessante. Ele era um mórmon meia-boca quando jovem, não chegou a ser missionário quando novo como se espera dos meninos mórmons, e foi mandado para lutar na guerra do Vietnã por três anos. Quando voltou, conheceu a Barbara, que era mórmon fervorosa, começou a levar a religião a sério, e se casou. Depois de aposentado, atravessou os EUA de bicicleta, mas achou que não era o suficiente. Então ano passado fez um plano mais audacioso: pedalar ao redor dos EUA, descendo toda a costa oeste, cruzando o país pelo sul, subindo a costa leste e cruzando de volta pelo norte. Pretendia fazer isso sozinho, mas a dona patroa resolveu que não ia deixar o marido, então com 67 anos, ir sozinho. Ela ia junto. De carro, mas ia. Então compraram um trailer, uma caminhonete que aguentasse puxar o trailer, e caíram na estrada: ela preparava o café, ele comia e saía de bicicleta, só com o necessário para passar o dia. Ela arrumava tudo e ia até a próxima cidade onde iam passar a noite, acertava onde parar o trailer, preparava a janta e o esperava. E assim viajaram oito meses. Tenho a impressão que para ela, também com mais de sessenta anos e dona de casa, dirigir pelas estradas sozinha o dia todo foi uma aventura tão grande quanto para ele pedalar. Mostraram orgulhosos quatro livrões de capa-dura que imprimiram, com os diários de cada um durante essa epopeia.

Durante o jantar eu fiz algumas perguntas sobre a igreja Mórmon, e Paul ficou impressionado com meu interesse. Mais tarde, à noite, o filho mais novo deles, Aaron, chegou em casa. Com apenas 23 aninhos, ele tinha sido missionário no Brasil, no Rio Grande do Sul, por três anos, e todo feliz de poder falar português de novo, se ofereceu para tirar todas as minhas dúvidas sobre sua religião. Ele foi me contando os detalhes da história de Joseph Smith e elder Cunningham, como é trabalhar como missionário em outro país, como são os cultos deles… E daí eu perguntei sobre o lance dos negros. “É, realmente, os negros eram aceitos na igreja mas não podiam se tornar pastores. Mas daí Deus mudou a doutrina, não cabe a nós duvidar de Seus desígnios. Não tem nada na Bíblia que fale a respeito, então pode mudar. Não é como o homossexualismo, que a Bíblia diz claramente que é uma abominação e um pecado mortal.”

Assim, tão espontaneamente. O respeito que porventura eu estivesse criando por eles desabou. Não que eu achasse que eles fossem tolerantes com ser gay, mas veio tão por si só que dá pra ver que é um preconceito muito importante de se ter quando se é mórmon. Continuei a conversar sem protestos, ofereci compartilhar com ele todas as minhas músicas brasileiras que eu trouxe no laptop, e enquanto papeava sobre casamento, música e transferia arquivos com meu pen-drive, olhava para o garoto, tão novinho, já tão intolerante, com a certeza de que ele nunca tinha convivido com gays em sua vida, e nem imaginava que tinha abominação ali na casa dele copiando gigas de MPB para seu computador.

Antes de dormir, ele disse que eu podia levar um Livro de Mórmon comigo se eu quisesse. Disse que ia pensar a respeito, já sabendo que a resposta era não.

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