GOPR2018

Cínico espírito prático


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Angelana Paula no contraluz

Angelana Paula e o mar de lava

Como já disse antes, os trechos dessa semana final da travessia dos EUA foram definidos de maneira que a gente só escalasse uma montanha por dia. Pois que hoje chegamos ao maior marco do final dessa jornada, tirando o oceano em si: a última montanha decente do caminho. Depois que a gente ultrapassasse o McKenzie Pass, a 1623 metros do nível do mar, era tudo ladeira abaixo. E mais descida do que subida: a altitude antes da montanha é de 900 metros, e a ladeira descendente nos deixaria a míseros 450 metros acima do oceano. O dia prometia.

Mas, primeiro, a gente ia aproveitar o horário comercial numa cidade decente e finalmente parar numa bicicletaria para resolver nossos problemas de câmara. Saímos da casa do Gale às oito e pouco da manhã, e ficamos no McDonald’s tomando mais um café da manhã trash e esperando a bicicletaria abrir às 10. O timing foi perfeito: quando demos adeus ao Ronald para partir para a bicicletaria, Lewis encontrou mais um pneu vazio de presente.

“Uia, bem na hora”, ele comemorou. “Pelo menos eu vou na bike shop e compro umas duas câmaras, e daí sento e substituo a furada pela nova e…”

“Peraí”, eu interrompi. “Jura que você pretende trocar a câmara você mesmo???”

“Claro”, ele respondeu, “eu não gosto de pagar por coisas que eu posso fazer eu mesmo.”

Eu não me aguentei. “Cara, você vai sentar na frente de uma bicicletaria e se sujar todo pra trocar uma câmara, a fim de economizar cinco dólares de serviço que não vão te fazer falta nenhuma? Como assim??”

“A gente tem filosofias diferentes”, ele retrucou.

“Não faz sentido. Ainda mais que a gente vai ficar esperando eles trocarem as câmaras dos meus pneus anyway”, devolvi. “Meu, eu te pago os cinco dólares.”

E pagaria, mas felizmente não tive que pagar, ele se convenceu que seria besteira tanta vontade de fazer você mesmo. Mas só porque decidiu que era hora de também trocar o pneu de trás por um novo, pra ver se ele parava de esvaziar. Aproveitei a visita à loja para ajustar meus freios e comprar várias espátulas de tirar pneu novas, incluindo duas para Lewis, que tinha quebrado as próprias tentando trocar meu pneu teimoso.

As duas horas antes do almoço em Sister passaram mais tranquilas, agora que todos tinham câmaras não-remendadas, se bem que a paranoia do pneu vazio ainda continuava. Depois do almoço, entramos na estrada que leva ao McKenzie Pass, e pedalamos 700 e tantos metros para o alto já com um certo tédio com relação às subidas, a ponto de se pegar gostando do exercício e achando a ladeira bacaninha. Mas essa última pirambeira tinha surpresas: no alto da montanha, um mar de rocha vulcânica preta se espalha à beira da estrada. É impressionante: rocha negra a perder de vista, que escorreu e parou naquele shape há aproximadamente 1700 anos, segundo os painéis educativos na beira da estrada. Já valeria a pena por si só, mas mais pra frente tem algo mais legal: no cume do pass, um observatório de uns três andares, construído com as mesmas pedras vulcânicas que se esticam ao redor.

McKenzie's Pass Observatory

Torre traçada por Gaudi?

Grande elenco

O elenco do curta infantil se preparando para mais um dia de filmagem

Eu, todo turista, parei, conversei com uma equipe de atores que estava filmando um curta infantil de fantasia com sérias restrições econômicas (o mirante seria o castelo do bruxo do mal), subi no alto do mirante, tirei fotos, me ofereci para bater as fotos das pessoas… Lewis, como se propõe fotógrafo, subiu comigo carregando suas megalentes e tirou as devidas fotos da paisagem. Mas dava pra ver que estava inquieto para seguir caminho, voltou para a estrada assim que cumpriu o protocolo. Quando eu terminei minha turistaiada toda, ele já tinha partido.

Vista do observatório

Do alto do observatório: agora é só descida, mesmo

Coloquei o capacete, os óculos escuros, e lá fui eu para a última descidona da viagem. E que descida: eu devo ter passado uma meia hora ladeira abaixo. Quase tenho dó de quem faz o percurso no sentido inverso, porque deve ser dureza escalar esse trecho: inclinação grande, caminho tortuoso daqueles mais ingratos, você pedala em zigue-zague e não avança nada na distância geral do mapa. Mas como tinha passado por várias subidas dessas láááááá na costa leste, tentei aproveitar o máximo esse escorregador gigante. Passava por placas indicando a elevação despencando: “5000 pés”, “4000 pés”, “3000 pés”… serpenteava por curvas tão fechadas que praticamente via as minhas costas, afundando numa floresta densa de pinheiros que ficavam mais esmeralda com a luz do entardecer. Não dava pra ganhar muita velocidade, mas é uma recompensa por tantas semanas passadas em grandes altitudes. Volta e meia eu pensava o que aconteceria se eu me distraísse e perdesse a curva, sendo lançado pela floresta como personagem de desenho animado, que trágica história seria pedalar tanta distância pra quebrar os dois braços e um fêmur a dois dias do oceano. Melhor prestar atenção, “1000 pés”, a ladeira ficou mais suave, daí foi só pedalar sem fazer esforço até chegar no vilarejo de nosso host do WarmShowers para esta noite, em McKenzie Bridge.

Encontrei Lewis num mercado de beira de estrada no povoado, comemos algo enquanto trocávamos nossas impressões sobre a derradeira ladeira, e fomos caçar a casa que nos abrigaria. Quando a encontramos, mais uma vez encontramos um bilhete na porta dizendo pra gente entrar e nos sentir à vontade, a porta aberta, a casa vazia. Deu pra cada um tomar banho, fazer a janta e tirar um cochilo até que Heidi, a autora do bilhete, chegasse.

Heidi's friend

Bêbado profissional é assim: dormiu, cachorro de travesseiro, latinha equilibrada no joelho sem cair

Conversando, descobrimos que ela mora com mais três pessoas, todos empregados pela guarda florestal em diversas funções. Os outros três tinham aquele final de semana de folga e tinham ido fazer rafting, ela tinha que trabalhar e ficou. Ficamos conversando por um bom tempo, depois outros três amigos dela chegaram com cerveja e ficaram batendo papo na sala até altas horas. Lewis, com aquela tontice de quem tem 22 anos, foi para o quarto dormir às dez e pouco, deixando para trás a menina gatinha, novinha, solitária e levemente bêbada. Eu, trintão, cínico e desinteressado, fiquei só vendo a chance dele tirar o atraso passar dando tchau na janelinha.

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