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Quanto do seu sal são lágrimas?


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Me, Lewis, Pacific Ocean

Coleguinhas à beira-mar

Além de rachar as contas, tem duas coisas que eu e Lewis dividimos a viagem toda: uma extensão de tomada que eu comprei em Carbondale, e um martelo, que eu trouxe com a Iracema original, muito útil para fincar os grampos das barracas de camping no chão. Eu não vejo problema em compartilhar esses meus apetrechos com o coleguinha, inda mais que ele conserta os problemas da minha bicicleta com tanta empolgação e boa vontade.

Último dia. Ansiedade. Alegria. Pressa. Mudança. Tudo junto. Como lidar? A única opção era fazer como todo os outros os dias: colocar o uniforme, empilhar tudo na bicicleta, se despedir do host (sem Livro de Mórmon na bagagem) e tocar para a estrada, torcendo constantemente para que o pneu não furasse mais uma vez e criasse uma dor de cabeça desnecessária de despedida. “Último dia, vamos lá!”

Ainda restavam 72 km de Veneta até Florence, a cidade onde se encerraria esse longo caminho. O dia estava nublado, a estrada, movimentada, o acostamento, faltando. O trecho da manhã teve tudo que resumia essa jornada: carro tirando fina, animal morto na estrada, uma subidinha só pra lembrar que tem que pedalar muito, friozinho na medida para te fazer tremer sem blusa, mas suar com ela. Paramos para almoçar num restaurante que deixava a desejar. “Último trecho, vamos nessa, buddy!”. No espírito comemorativo do final, programei a câmera do capacete para tirar fotos a cada 5 segundos – quem sabe eu conseguiria fazer um filminho stop-motion do final dessa aventura. Retomamos a estrada com champanhes imaginárias já estourando ao nosso redor.

Mas é claro que último capítulo tem que ter altas emoções.

Primeiro, demos com um roadblock por conta de mais uma obra na estrada, reduzindo o caminho a uma única faixa. Ficamos parados uns 15 minutos esperando a permissão para atravessar mais um trecho sem asfalto, tremelicando nas ranhuras do concreto de base. Não é muito dramático, mas aumenta o suspense, sem pensar que a câmera continuou lá clicando a cada 5 segundos, então eu não parava de pensar nas 600 fotos do tiozinho que segurava a placa que eu estava tirando.

Mapas ao ar

Mapas ao ar

O resto da estrada para chegar em Florence, a cidade final, passou rápido. Eu e Lewis nos demos um high-five quando chegamos na entrada da cidadezinha. E daí nos demos conta que Florence não fica bem na praia. Ela é encostada num canal bem grande, mas não dá pra praia nenhuma; a praia mais próxima, que realmente dá para o oceano Pacífico, fica oito quilômetros mais pro norte.

Quando eu tinha cinco anos, meu tio Zé foi me ensinar a nadar na piscina. A gente entrou na água, ele foi pra trás e falou pra eu nadar até ele. Quando eu quase chegava nele, ele dava mais três passos pra trás, e eu tinha que nadar mais pra tentar alcançá-lo. Fiquei um tempão perseguindo ele na piscina, sem ter a simples ideia de desistir do tio educativo e nadar até a borda, até que comecei a chorar de desespero e ele foi me acudir.

Pois então, eu me sentia como se o oceano tivesse acabado de dar três passos para trás. Mas nesse caso a piscina não tem borda.

Eu já queria ir direto para a praia, mas Lewis teve o bom senso de nos fazer encontrar um hotel primeiro e deixar a bagagem toda lá. Mal contendo minha ansiedade, concordei. O coleguinha ainda teve o sangue-frio de nos fazer comer num restaurante próximo do hotel, o que exigiu todo o meu parco conhecimento de meditação para não dizer “e daí que a gente vai estar esfomeado e não vai conseguir pensar em mais nada, vamos acabar com isso!!”. Mas, com razão, é melhor cruzar a linha de chegada sem o estômago roncando.

Alimentados e carregando apenas os apetrechos necessários para os momentos finais dessa travessia, lá fomos nós pegar maaaaais uma estradinha para chegar na praia. Vinte minutos pedalando, com mais montes de fotos a cada cinco segundos. Quando finalmente encontramos uma placa apontando “beach”, eu parei, liguei a câmera em modo de filmagem, e fiquei lá narrando os momentos finais.

Mais um pouco de asfalto, algumas curvinhas, a paisagem ficou com cara de praia, chegamos num estacionamento. E o tio deu mais três passos pra trás: a água ficava a pouco mais de 500 metros do estacionamento. Um areal enorme nos separava das ondas. Já viemos até aqui, o que são mais 500 metros?

Pegadas e rodas na areia

Pegadas e rodas na areia

Tem aquela historinha clássica das pegadas na areia e como nos momentos mais difíceis o carola desconfiado só viu um par de pegadas, e depois descobre que era porque deus o estava carregando no lombo. Um dia minha bike vai olhar pra trás e duvidar que atravessou uma praia cheia de areia, e alguém vai apontar pra ela que nesse momento difícil, eu a estava carregando nas costas, porque foi isso que aconteceu. Bicicletas são veículos maravilhosos, mas inúteis na areia fofa. Mas a viagem começou com as rodas da magrela mergulhadas no oceano Atlântico, então tinha que terminar com essas rodas, já bem mais desgastadas, se molhando no Pacífico. Toca jogar a bike no ombro e caminhar afundando o pé na areia.

Assim que comecei a caminhar, o tênis começou a ficar mais cheio de areia que ampulheta, então, sendo brasileiro, tirei os sapatos e a meia e os levei numa mão, enquanto a bicicleta ia no outro braço. Nesse momento o chão começou a alternar entre areia fofa e trechos de pedregulhos. Não dava pra colocar os sapatos de volta que ia ter muito mais areia pela frente, nada mais resta além de ir pisando nas pedras tentando machucar os pés o menos possível.

Foram uns quinze minutos de trocar bike de braço, gemer com o calcanhar batendo em pedra pontuda, desviar de pessoas que iam e vinham no caminho sem ter pedalado seis mil e quinhentos quilômetros para merecer estar lá. Mas por fim, lá estava, o oceano, com o sol se pondo, ondas, cheiro de mar… Você não sabe o que fazer. A champanhe é imaginária, e é tudo que tem, o mundo ao redor não sabe que devia estar estourando rojões, soltando balões, revoando pombos ou qualquer outra ação comemorativa. Coloquei a bicicleta na areia, empurrei ela pra água, as ondas vieram e vieram, te molham todo e você não se importa porque você batalhou muito pra passar frio lá. Tirei algumas fotos com o celular, encerrei a narração do vídeo e desliguei a câmera do capacete.

Marcio e Maré

Oceano Pacífico, finalmente

Lewis, que ia usar o tripé pela primeira vez, me chamou pra tirar uma foto minha na água. Eu, que não queria só ter foto de capacete nesse momento histórico, tirei-o do cocoruto e o coloquei em cima do bagageiro da bike.

“Agora deixa eu tirar uma foto sua!”, me ofereci, e empurrei a bicicleta para a margem. Olho pra trás… e lá está o capacete, virado de ponta-cabeça dentro da água, com a câmera imersa nas ondas. Saí correndo para resgatar o equipamento, mas já era tarde demais. A GoPro não ligava mais. Tanta foto, tanto vídeo, tudo jogado no reino da incerteza.

Doeu. Essa câmera esteve literalmente na minha cabeça por meses. Mas não podia deixar que isso estragasse a chegada. Suspirei, me resignei, puxei o iPhone e continuei a tirar minhas fotos celebratórias.

Já com a experiência prévia do final do Caminho de Santiago, eu sabia que cabia a nós providenciar o próprio pódio. Peguei minha sacolinha que tinha trazido sorrateiramente desde o hotel e dei um pacotinho de presente para o Lewis de fim de jornada. Ele ficou sem graça que nem tinha pensado em me dar um presente (o que eu já esperava) e, sem jeito, rasgou o papel de presente para revelar uma extensão de tomada e um martelo, que eu tinha comprado dias atrás quando a gente chegou em Redmond e eu fiz a gente parar num Wal-Mart com uma desculpa esfarrapada. Afinal, eu não estarei mais por perto nas aventuras futuras do coleguinha para emprestar minhas ferramentas.

Rodas no mar

Objetivo cumprido: rodas no mar

Liguei pra mãe pra dizer que tinha chegado, e ela começou a chorar no telefone de emoção. Eu não conseguia chorar, e, pra ser sincero, não conseguia ter muita reação. Você passa 70 dias com um objetivo fixo, quando ele chega mal se consegue acreditar que é verdade. Depois de tanto tempo em que a vida se resume a pedalar, comer e dormir, de repente uma infinidade de opções se abre à sua frente. Não dá pra saber o que fazer.

Guardei o iphone no bolso, me forçando a ignorar as mensagens de Facebook, Instagram e Twitter que tentavam comemorar comigo minha chegada. E me concentrei em olhar o sol que mal aparecia na tarde nublada, nas ondas prateadas, naquele mar tão sem limite quanto o futuro que eu tinha agora.

2 Responses to “Quanto do seu sal são lágrimas?”

  1. debora murbach

    Marcio, eu fiquei muito emocionada quando li “CHEGUEI” no seu twitter… e estava assim me sentindo meio abandonada porque não tinha mais blogs diários para ler – e principalmente porque não conseguia acessar esse relato da chegada. Frustrante! Mas WHAT AN ACCOMPLISHMENT! Genial. parabéns. Quando voltar, separe um tempinho pra eu te dar um beijão!
    Aliás, acabei de falar coM o Davi, que bom que vc esteve com ele…

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    • Marcio Caparica

      Oi Debora!
      Vou tentar manter escrevendo regularmente no Chão, o exercício de escrever me faz bem, então, se tudo der certo, seu hábito de conferir meu blog vai se manter por um bom tempo. Reencontrar o Davi foi um prazer todo particular, um privilégio que só veio coroar esse fim de viagem de várias maneiras. Com certeza vou te fazer uma visita aí no Brasil, pode preparar os salgadinhos! 😉 Beijo!!

      Responder

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