Minha capa marca-texto

A capa amarela

Hoje, mais um atestado de que os motoristas estão mesmo muito mal-acostumados.

Em Londres eu adotei como equipamento antichuva oficial uma capa (ou poncho) impermeável. Minha primeira, mais mostarda, me serviu fielmente por todo tempo que eu morei lá e pelos primeiros meses depois que voltei. Até que Lampinho veio morar aqui comigo. Nos primeiros dias, quando ele ainda não confiava muito em seu humano novo, a porta do quarto bateu com o vento quando eu estava trabalhando. Ele ficou aflito, e comeu a capa toda, que ficava pendurada atrás da porta do quarto.

Demorou um pouco, mas comprei outra, encomendada lá da Grã-Bretanha. Essa ainda mais amarela, quase fosforescente, com faixas reflexivas, uma beleza. Ela me acompanhou por toda viagem pelos Estados Unidos e voltou inteira. Deu um sumiço por um tempinho, mas ontem, quando começou a cair mais um toró, eu tive a iluminação de perguntar pra Rose, A Faxineira, se ela não sabia da capa impermeável. E ela a resgatou de onde estava “guardada”: do fundo do cesto de roupa lavada, debaixo de lençóis há meses, onde eu jamais a encontraria.

Eu, molhado, chegando em capa ainda de capa.

Eu, molhado, chegando em casa ainda de capa.

Eu prefiro um poncho à prova d’água um milhão de vezes a jaquetas e calças impermeáveis. Simplesmente porque o poncho é arejado. Com jaqueta e calça, conforme se pedala se sua, e você acaba molhado do mesmo jeito, só que por causa do seu suor ao invés de por causa da chuva. Quando eu visto a capa, eu viro uma tenda kolynos deslizando pelas ruas. Eu chamo atenção nas ruas, e a intenção é essa mesmo: em condições reduzidas de visibilidade como acontece quando chove, você tem que aparecer mesmo para os motoristas.

Fim de noite, pós-trabalho, não me intimidei pelo toró que caía. “Mas você vai encarar essa chuva toda?”, perguntaram. “Claro que vou, não sou amador”, respondi, já com a capa debaixo do braço. E, fantasiado de caneta marca-texto, fui pedalando do centro de Sampa até o Sumarezinho, onde ainda moro. Ignorando o nariz que coçava com as gotas que se equilibravam em sua ponta, evitando as enxurradas, pensando no que escreveria no blog. Quando cheguei no topo da ladeira, já no início da Angélica, a chuva tinha amainado. Cortei o balão do fim da Paulista pela pracinha, e fui atravessar a rua pela faixa de pedestres.

Acontece que a gente ainda tem a cultura de que é o pedestre que tem que esperar não ter mais carro para atravessar na faixa. E os motoristas não consideram muito as bicicletas: já perdi a conta de quantas vezes um carro entra num cruzamento na minha frente, o que jamais fariam se fosse outro automóvel na mesma velocidade. Na minha cruzada solitária para reeducar os motoristas do mundo, entrei em baixa velocidade na faixa, brilhante como uma caneta marca-texto.

Um carro veio na minha direção, não muito rápido. Em geral, conforme eles se aproximam, eles dão uma desacelerada ao ver o ciclista na faixa de pedestre. Mas esse não reparou na tenda que passava em sua frente e continuou na mesma velocidade. Eu estava quase chegando na calçada quando ele finalmente botou reparo na lona sobre rodas que terminava de cruzar a rua e freou, a um segundo de bater na minha roda de trás.

“Filho da puta, fica aí distraído e ia me acertar”, eu pensei. “Ainda bem que não bateu…” e POF. O carro logo atrás deste, que também havia de estar distraído, bateu na traseira do primeiro. Uma batida com mais barulho que dano, mas deu pra ver que ia ser uma daquelas que eles iam ter que descer do carro e trocar telefone pra resolver o seguro. Eu, já entrando no acesso à Dr. Arnaldo, soltei, irritado “Caralho, esse povo dirige e não olha pra frente!” para o povo do segundo carro e segui caminho.

Com certeza não aumentei o nível de simpatia pelos ciclistas na cidade. Mas quem conduz toneladas de ferragem pelas ruas são os motoristas. Cabe a eles ficar atentos e reparar nas lonas amarelo-fosforescente com faixas reflexivas que compartilham as ruas consigo.

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