Os três vasinhos que faziam companhia pra orquídea

Semente plantada

Em junho de 2008 eu e Felipe comemoramos nosso primeiro ano de namoro. O primeiro aniversário de relacionamento é sempre um marco importante, é uma vitória contra tudo que sempre conspira para ele acabar, toda a fase de ajuste, etc. Tínhamos toda uma programação para a noite. Na hora combinada, Felipe chegou no meu apartamento todo feliz e com seu presente: um vaso com uma orquídea. “É pra ela dar flor de ano em ano, se tudo der certo cada vez que a gente fizer aniversário ela vai estar florindo”.

Lindo, inspirado e romântico, não é?

Eu não achei. Na verdade, achei bem sem noção. Poxa vida, um ano de convivência, tanto tempo passado aqui em casa, e ele nunca percebeu que não tem NADA aqui que indique que eu tenha qualquer interesse em plantinhas? Não tem vaso, não tem livro de jardinagem, não tem florzinha nem nos lençóis. E de onde ele tirou que eu gosto de orquídea? Mas que presente mais errado. Tentei disfarçar, deixei a orquídea na cozinha com um sorriso molenga, e seguimos nossas comemorações.

Nos dias seguintes tive que resolver como lidar com a orquídea, que obviamente não seria jogada fora por mais fora das minhas expectativas que a coitada fosse. Ela não podia ficar na cozinha, muito menos na área de serviço: o espaço na área utilitária do apê é reduzidíssimo. Ponderei, ponderei, e resolvi deixá-la na muretinha ao lado da entrada do apartamento, no corredor no lado de fora. Sorte que a orquídea era resistente, porque eu não fazia ideia de como cuidar dela. As flores caíram e ficou aquele teco de vegetal num vaso, e eu não sabia se regava e corria o risco de afogar a plantinha, ou se deixava sem regar e perigava dela morrer desidratada.

Passaram-se os meses e peguei o hábito de olhar pro toquinho no vaso todo dia quando saía de casa. E comecei a achá-lo muito sozinho. Então, inspirado por todos os feijõezinhos que eu plantei no algodão durante a infância, comprei três vasinhos, terra e algumas sementes na Cobasi e plantei minhas primeiras plantinhas. O critério da escolha era que tivesse “mini” ou “anã” no nome da planta, porque o vaso era pequeno, e desse flor, porque além de não fazer jardinagem eu também não cozinho, então horta de tempero é mais forçação de barra ainda.

E não é que esse lance de semente funciona? Em alguns dias os brotinhos apareceram, antes até do que eu esperava. Que incrível! Comecei a acompanhar o processo todas as manhãs, saindo para o trabalho. Quantas vezes e já estava virando a chave, lembrava que não tinha regado as plantinhas, voltava, regava e ia embora, para a alegria seguida de desilusão do Lampinho, que sempre acha que hoje é o dia que eu vou desistir de passar a tarde fora. Aos três vasinhos juntou-se mais um, grande e comprido, que fica no chão na frente da porta, e depois outro, redondo, grande e fundo, que fica do outro lado da porta.

Talvez querendo, talvez não, Felipe tinha colocado um jardim na minha vida.

O grande vaso redondo e suas habitantes

O vasão redondo, com as plantas que sobreviveram à minha viagem para os EUA

Todos esses anos depois, tentar manter os vasinhos populados já faz parte da minha rotina. Várias gerações das mais diversas flores já passaram por esses vasos. Eu planto, vejo elas brotarem. Já me conformei que Darwin faz seu papel e no máximo metade das sementes brotam, das quais nem metade chega a se firmar. Ao longo do tempo, várias já cresceram, a maioria já morreu – por descuido acidental, por agressão do cãozinho, por ventania que derruba os vasos, por vizinhos que derramam o que não deviam neles, por viagem minha. Minha temporada nos EUA dizimou quase todas, entregues aos cuidados do Anselmo e da faxineira, só as do vasão redondo sobreviveram. Elas morrem, eu faço o funeral do vasinho, compro mais terra e sementes e insisto mais uma vez. Que elas cheguem a dar flor chega a ser raro, mas o propósito delas nem é mais bem esse anyway.

Significativo é que hoje em dia eu lembro do vaso de orquídea e suas consequências e todas as pequenas alegrias diárias que esse presente me trouxe. Mas não lembro do que eu dei de presente pro Felipe. No fim das contas, qual foi o presente melhor?

p.s.: Hoje a orquídea inicial está com o Felipe, que a levou consigo no ano seguinte para tomar conta dela durante uma das minhas viagens de férias, e acabou ficando com ela. Com certeza sendo bem tratada.

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