Água, sabão, cloro e bucha para destruir anos de gordura das paredes

Arqueologia de azulejo

Fazer vista grossa é uma dessas habilidades de extremos: ou você faz completamente ou não faz.

Antes de me mudar para a Exclamansão, eu resolvi que ia pelo menos pintar o apartamento. Seria a maneira mais eficiente e econômica de melhorar a moradia e deixá-la com a minha cara. Sem dizer que do jeito que estava não dava pra viver mesmo: as paredes todas num tom que eu batizei de bege-catota, e os batentes e esquadrias todos pintados de marrom-cocô. Já sugava a alegria de viver só de olhar.

Foi assim então que eu passei o carnaval pintando apartamento. Como nunca tinha feito esse tipo de serviço por conta própria antes, achava que teria terminado todo o serviço até a Quarta-feira de Cinzas. Que ingenuidade. Tintas compradas no sábado, pintura iniciada no domingo, no final da quarta-feira eu tinha conseguido pintar o teto e as paredes da sala e do meu quarto. O que significa metade da missão.

Todas as áreas azulejadas seguem a mesma palheta escatológica e deprimente. Mas eu não tenho grana, tempo ou disposição de trocar os azulejos, então decidi pela opção mais em conta de pintá-los também. Enquanto o resto do Brasil encarava a quinta-feira de trabalho ainda se recuperando da ressaca do Carnaval, eu cheguei na Exclamansão pela manhã preparado para pintar todos os azulejos de branco.

Ninguém jamais limpou em cima da campainha, coitada

Anos e anos de batatinha frita se acumulam no topo da campainha de passarinho.

Na fase de preparação as coisas já começaram a se complicar. Conforme eu ia desparafusando os espelhos dos interruptores e os lustres do teto, eu percebia que eles estavam cobertos num filme de gordura com poeira. Fui limpar uma parede de onde retirei um armário caindo aos pedaços, e reparei que as paredes todas estavam imundas. Daí olhei para o parapeito da janela da área de serviço, em geral fora de vista, e descobri que ele estava preto com uma crosta de fuligem, gordura e poeira. Quanto mais eu olhava, mais imundície encontrava. O povo de antes conseguia fazer vista grossa, eu, sentindo o grosso do bacon nas paredes, não conseguia mais.

Eu não sou dos maníacos por limpeza, longe disso. Mas a possibilidade de que o filme de gordura viesse a prejudicar a aderência da tinta pra azulejos, e em poucos meses ela começasse a descascar, falou mais alto. Respirei fundo, fui ao supermercado e comprei um kit de limpeza pesada. E lá fui eu esfregar todas as paredes com azulejo.

Fio amarrado entre parede e vitrô

E há quantos anos esse fiozinho está amarrado na janela? Pra segurar o quê?

Meu plano de passar a tarde pintando acabou se transformando numa missão de destruir todos os resquícios arqueológicos de anos de ocupação porca naquele apartamento. Bucha e escova na mão, bacia com Veja X-9 limpeza pesada por perto, força no braço. A água preta corria levando consigo a história de anos de refeições dos antigos moradores. Jazigos de baratas eram profanados impiedosamente, seus corpinhos escorrendo parede abaixo em cataratas de sabão e cloro.

Quatro horas depois, limpeza terminada, eu devo ter ganhado meio metro quadrado de área no apartamento agora que o filme de banha se foi.

O que mais me impressiona é que, obviamente, ninguém fazia uma limpeza dessa lá há muito, muito tempo. Os moradores anteriores se mudaram para o imóvel e não se deram o trabalho de conferir a situação das muretas. Jamais se preocuparam em fazer uma faxina bem feita e deixar o apartamento feliz e limpinho.

Bem, essa fase terminou e agora o apartamento está em boas mãos.

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