Love is out there

O que acontece do outro lado do oceano

Dentre as redações em que eu já trabalhei na vida, a da Placar foi uma das que eu mais me diverti. Era um ambiente cheio daquele ar pueril presente em ambientes onde todos gostam muito de futebol, mas ainda respeitador das peculiaridades de cada um. Um lugar em que as pessoas se xingam com carinho, capaz de acolher até mesmo alguém que nunca gostou muito de bate-bola como eu. Bom principalmente numa rotina em que se tem que obrigatoriamente passar muito tempo junto para terminar todas as missões do seu emprego.

Foi por conta desse ambiente assim mais permissivo que, um dia, enquanto eu discutia uma matéria com meu chefe Rodrigo, uma conversa paralela sobre o campeonato europeu alcançou a Suécia, e daí as loironas suecas e os filmes suecos que alegraram a juventude de tantos membros da redação. Enquanto esperava um arquivo carregar, Rodrigo confessou: “É, taí algo que eu nunca vou conseguir fazer na vida”.

“O quê?”, eu perguntei.

“Suecas. Não saí com nenhuma enquanto era solteiro, agora não vai rolar mais.”

“Ah, Rodrigo, sei lá, não precisa ser assim também, né”, eu argumentei. “Vai que um dia você vai pra Europa…”

“Como assim?”, ele me perguntou surpreso.

“Assim, o que acontece com um oceano de distância não conta, né?”

“De jeito nenhum!”, Rodrigo cravou, meio surpreso e ao mesmo tempo revoltado com a ideia.

Ao longo dos vários meses em que trabalhamos juntos e em que se criou o hábito do café diário no meio da tarde com as meninas da redação, o assunto da (in)fidelidade retornou várias vezes. E tanto eu como Rodrigo nos mantivemos coerentes em nossas linhas de raciocínio. Eu, de que uma ficada que se tenha com alguém que você sabe que nunca mais vai ver na vida não é tão errado assim, que isso não quer dizer necessariamente nada para o relacionamento principal, que é melhor isso do que ficar o resto da vida arrependido com uma vontade nunca satisfeita. Rodrigo com seu conceito de que casamento é algo muito sério, que fazer qualquer indiscrição é sinal de que o amor acabou e que, portanto, se você ainda ama o cônjuge, não deve nem chegar perto da cerca, quanto mais pulá-la.

O embate ideológico nunca se resolveu nem fez com que qualquer um dos dois mudasse de ideia. Mas fez com que eu admirasse muito as convicções do meu chefinho – principalmente que ele consiga se manter irredutível num mundo tão cruel com o conceito de amor romântico e exclusivo. Eu não consegui manter as minhas, que existiam há quinze anos mas que foram sendo esmigalhadas com o passar dos anos e dos amores. E esse certo fascínio com os dois extremos do que seria uma relação monogâmica (ou quase) fez com que eu me interessasse cada vez mais em ler textos que explorassem as particularidades dos relacionamentos contemporâneos, gays ou héteros, abertos ou fechados, e aprendesse conceitos como a diferença entre monogamia social e sexual.

Tudo que acabou sendo útil durante a gravação do Lado Bi da Monogamia, em que eu e o James discutimos a capacidade dos gays em se relacionar com um, dois ou até três parceiros ao mesmo tempo, e como isso de repente pode acabar alterando as ideias e expectativas que os héteros têm sobre os próprios casamentos.

Não que as ideias do Rodrigo vão mudar por causa disso…

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