senj

O alfabeto, o forte e o bode cantor

Um pôster em que os 41 caracteres glagolíticos estão desenhados, com setas indicando a ordem em que se deve fazer cada traço, e uma pequena legenda para cada caracter indicando seu valor fonético e seu valor numérico.

Os caracteres glagolíticos também eram utilizados para indicar números de 1 a 1000

Até os anos 1960, todo mundo católico tinha que cantar a missa em latim. A cristandade repetia a liturgia em latim como boas ovelhinhas, graciaplena dominustecum orapronobis, sem entender muito bem o que estavam repetindo. Precisou o papa João XXIII convocar o Segundo Concílio do Vaticano para que os católicos pudessem matar o cordeiro de deus para tirar os pecados do mundo em sua língua nativa.

A não ser que você fosse croata, claro.

No século IX são Cirilo e são Metódio vieram pra esses lados espalhar o evangelho. misturaram uma porção dos alfabetos já existentes, deram uma mexida aqui e outra lá, e assim criaram o alfabeto glagolítico. Seu uso se espalhou pela Croácia, e algumas centenas de anos mais tarde, em 1248, o papa Inocente IV abriu uma exceção única para esse pedacinho de seu rebanho: o bispo Felipe de Sinj poderia usar o alfabeto local e sua língua nativa para realizar a liturgia. O privilégio se estendeu logo para todo o país. Esse alfabeto foi usado pela Croácia até o século XIX, quando ele foi trocado pela nossa sopa de letrinhas.

Por conta disso, os museus históricos da Croácia adoram exibir amostras de documentos, livros e placas de pedra escritas em glagolítico. Morrem de orgulho. Pois foi exatamente em Sinj que a nossa jornada pela Croácia começou hoje.

Tvrđava Nehaj

Vista do topo da torre do forte de Nehaj, a partir de um vértice da construção, num ângulo em que se vê todas as paredes, ao fundo o mar e um céu cheio de nuvens.

Forte de Nehaj: Trabalho de vigia com vista para o mar

No meio do século XVI a região da cidade de Senj estava sob risco de invasão dos otomanos, e o general Ivan Lenković mandou construir um forte para ajudar a proteger a costa. Para acelerar o trabalho, mandou que os mosteiros, igrejas e casas que estavam do lado de fora do muro da cidade fossem desmontados e suas pedras utilizadas para a construção da torre – os otomanos as destruiriam de qualquer jeito. E daí, para deixar o povo mais tranquilinho, batizou o forte e o monte em que ele está de Nehaj, que basicamente quer dizer “tô nem aí”. A ideia sendo que ninguém deveria se preocupar em acabar na ponta da cimitarra agora que o forte está completado.

Hoje em dia o Forte de Nehaj virou um museu cheio de peças medievais. Os visitantes podem (e devem) subir até o topo, de onde se tem uma visão linda do mar que um dia o forte tinha por obrigação defender. Mar azul, paredes de pedra, vento nos cabelos, basicamente não tem como a sua foto ficar feia. Não deixe de conferir como era o reservado dos guardas que tinham que vigiar a costa: uma cabinezinha carvada no muro com um buraco vazado, sobre o qual o soldado podia sentar e já deixar suas necessidades caírem do lado de fora.

Um nicho no muro de pedra capaz de abrigar uma pessoa sentada. Um buraco redondo na base do nicho atravessa todo o muro, para que as necessidades caiam para fora do muro.

Tem gente?

Pustolovno-Izletnički Centar Rizvan City

De Sinj nós fomos levados para Gospić para conhecer o Parque de Adrenalina Rizvan City. Como o nome já explica, esse é um lugar em que o cidadão pode ir para fazer seu coração saltar pela boca. Todo tipo de esportes radicais têm seu cantinho no parque: escalada, paintball, rafting… Nós blogueiros tivemos a oportunidade de experimentar o balanço gigante e a tirolesa.

Quem me conhece sabe que eu tenho uma certa fobia de altura. Medo não pela altura em si, mas pela vontade maluca de pular que me dá. Essa sensação absurda faz com que eu me mantenha distante de parapeitos de sacadas, beiradas de pontes e qualquer outro tipo de extremidade em que, jogando as pernas para o lado de lá, significariam meus últimos segundos de vida brincando de Super-Homem antes de virar patê. A única sensação de queda-livre que eu já tive foi na Torre Eiffel do Hopi Hari, e estes foram os piores 6 segundos da minha vida.

Então por que eu me submeti a me pendurar num balanço de 15 metros? Porque já estava lá mesmo. E porque tenho merda na cabeça. Sentamos eu, Ashley e Violetta entre duas toras de madeira presas a cabos de aço. Fomos devidamente presos com cabos de segurança à tora, colocamos capacete, nos agarramos a uma da tora e nos deixamos ser erguidos a 5, 10, 15 metros… Eu ia me arrependendo conforme a altura crescia. E tarde demais, porque não tem como desistir. De repente eles soltam o gancho, você despenca por longuíssimo meio segundo, e daí fica balançando num pêndulo gigante. Eu gritei como um bode cantor. E fiquei tão abalado que a Ana achou melhor não ir depois. Não adiantava dizer que o problema era eu, não o balanço.

Marcio, Ashley e Violetta se agarram às toras do balanço gigante, rindo nervosamente.

Preparar…

O trio, depois de ser erguido a uma grande altura num ângulo de 45 graus, é solto e começa a cair em movimento pendular.

Soltar…

Depois que o balanço finalmente para, vê-se Marcio, ainda tremendo, segurar a cabeça com o braço direito enquanto se agarra com todas as forças ao balanço com o braço esquerdo. Ashley, a seu lado, filma impiedosamente.

Morro!

Depois ainda encarei fazer tirolesa com resultados semelhantes. Já completei minha cota de me jogar no vazio para o resto da década.

A única outra atividade que eu gostaria de ter experimentado é um pebolim gigante, em que basicamente eles prendem cada pessoa numa viga de aço e cada um vira um bonequinho da mesa em tamanho humano, podendo apenas se movimentar ao longo da viga para chutar a bola e tentar fazer gol. Pena que para esse esporte em que nossos pés ficam maravilhosamente presos ao chão, nossa equipe não teve tempo no cronograma.

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