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Um nó de história

Gravata. Esse martírio do homem respeitável. Estranguladora de empresários, advogados, apresentadores… Quem diria que essa tira de pano causadora de tanto sofrimento é um dos maiores legados da Croácia para o mundo. A gravata vem das cravat, utilizadas por mercenários croatas do século XVII. Contratados pelo cardeal Richelieu, os croatas encantaram o exército francês com a elegância das tiras de pano amarradas em seus pescoços. O termo francês para croata era “croate”, que a ralé pronunciava “cravate”, e acabou por batizar essa tira de pano inútil de “cravat”. E gravata. Hoje você já aprendeu algo novo.

Nossa agenda de hoje foi dedicada a coisas à antiga:

Kapela Sv. Barbare

Uma capela no meio de um quarteirão, toda de carvalho, com duas torres.

Consta que por Santa Barbara ser também a santa dos bombeiros, a capela sobreviveu a séculos de incêndios a seu redor, apesar de ser de madeira.

A 13 km de Zagreb fica a capela de Santa Bárbara, em Velika Mlaka.Ela foi erguida em 1642, construída inteiramente de carvalho e – mais legal ainda – sem um prego, cimento ou nada que não seja encaixes. Sim, é basicamente um lego gigante de madeira. Ela é pequenininha e apertadinha e uma gracinha, mas tanta fofura não quer dizer que você pode entrar de qualquer jeito: homem só entra de calça, mulher só de saia comprida ou calça. E nada de ombrinhos de fora: regatas e blusinhas de alcinha também vão fazer que você espere do lado de fora, enquanto seus amigos de camiseta entram para ver as pinturas que decoram as paredes no lado de dentro.

Não tenha a expectativa de encontrar imagens num nível técnico de Michelângelo; as imagens nas paredes são todas reproduções tosquinhas de cenas tradicionais de santos. Mas mesmo assim você sente um quentinho no coração. A capela é dedicada a santa Bárbara, a santa que por amor a Cristo preferia ficar pra titia, mas teve o azar de ter um pai que, ao invés de morrer de desgosto, preferiu matar a filha. Um dos destaques da capela é a imagem de santa Kumenisa, outra santa encalhada que pediu a ajuda de JC para não perder o cabaço e teve suas preces atendidas ao acordar barbada um dia. Segundo o padre responsável pela igreja (fã de Jesus em primeiro lugar e Eric Clapton em segundo, por admissão própria), essa é a única imagem de Kumenisa na Croácia inteira.

Andautonia

O início de muros grossos de pedra expostos ao ar livre; uma camada de cascalho ainda recobre o resto das paredes.

Aqui aprontavam os romanos.

A Croácia foi colonizada inicialmente pelos romanos no primeiro século a.C., que fizeram bom proveito dela até o século 4 d.C. Quando começaram as invasões bárbaras, os romanos picaram a mula e não se tem um registro histórico que preste até o século X. Na cidade de Šćitarjevo está o sítio arqueológico de Andautonia, em que arqueólogos, esses abnegados, lentamente desenterram o que restou da vila romana que havia por ali. Numa casinha logo na entrada eles montaram uma reprodução de cômodos romanos, com ervas e objetos típicos da época, tudo à disposição para ser tocado, cheirado e experimentado. Qualquer item mais delicado já foi retirado das escavações (e podem ser encontrados no Muzej Turopolja), então o turista pode passear por entre as ruínas romanas.

Em outra casa, no fundo do sítio arqueológico, está instalada outra associação de fanáticos históricos dedicando-se a reproduzir o modo de vida romano. Togas, bigas, quadrigas, armaduras, espadas, eles reproduzem tudo para tentar viver hoje como se fazia antes de Genghis Khan – se bem que alguns legionários se esquecem de tirar os óculos. Como todo bom croata, eles nos ofereceram um regabofe genuinamente romano – nada com milho ou açúcar – antes da gente partir.

Kos & Jurišić

Pelo condado de Zagreb há dezenas de pequenas vinícolas familiares que vivem do ofício de embebedar o cidadão croata desde sempre. Nós tivemos a oportunidade de visitar uma delas, a Kos & Jurišić, logo antes do almoço, para o deleite da Violetta, minha colega finlandesa. “Olha essas parreiras, que beleza!”, ela exclamava. “Uma parreira tem que ser como uma top model: alta e magrela.” Fica a dica.

Tenho horror a enochato e portanto não me pretendo entendedor de vinhos. Eu gostei dos que provei, uns mais do que outros. Mas pelas reações da Violetta, esse parece ser um programa digno de quem entende de vinho.

Dvorac Erdödy

A fachada de um castelo em grande desreparo.

Isso é o que o comunismo faz com os castelos.

Próxima parada foi o castelo de Erdödy na cidade de Jatresbarko. Um dia ele foi bonito, imponenete e tinha até fosso. Hoje ele fica no meio de um parque até que bem bacana, mas está abandonado desde os anos 1980 porque o governo iugoslavo achava que ele era símbolo de decadência capitalista. O edifício está fechado e caindo aos pedaços. A cidade super gostaria que você fosse lá visitar. Eu te aconselho que você encontre algo mais bacana pra fazer.

Repro Eko

No fim do dia, ainda em Jatresbarko, passamos na Repro Eko, o paraíso de quem curte alimentos orgânicos. Eles só servem comida vegana colhida lá mesmo (e se você quiser, pode pegar uma cesta e dar uma ajudinha), vendem farinha moída sem uso de eletricidade no moinho d’água que fica ali, e ainda dão cursos sobre ecologia, macrobiótica e vegetarianismo. Bonitinho mesmo é que num canto da propriedade eles ainda preservam o cenário usado na gravação do clipe “You’re A Tree And I’m A Balloon” da cantora pop Maja Keuc. Deve fazer a alegria de garotas adolescentes. Se você quiser, pode tirar uma foto sentado no trono que a garota usa no vídeo, como eu fiz.

Marcio fazendo cara de inteligente sentado num trono de madeira, na frente de uma árvore, rodeado de lâmpadas e outros objetos inusitados pendurados.

I know you know that I don’t really like you…

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