klapa-basca

Presentes musicais

A intenção desse projeto em que estou participando é, obviamente, promover o turismo na Croácia. Por isso que cada cidadezinha que conseguiu entrar no nosso itinerário nos leva para qualquer atração que tenham por perto: a esperança é que a gente se encante, escreva algo derramando elogios e, como resultado, hordas de turistas endinheirados venham gastar seus euros por ali.

É um esquema muitas vezes bom (nos tratam como reis e não nos cobram nada) e muitas vezes ruim (por que me trouxeram no meio do mato para ver uma cisterna romana abandonada e suja?). Mas o maior problema é mesmo não ter contato com o dia-a-dia dos croatas, ficar distante de sua personalidade, sua alma.

No turbilhão de museus, igrejas e vinícolas, porém, às vezes acontece algo que nos conecta com o lado bonito do coração croata.

Dia 12 o primeiro item na agenda era um passeio de barco pela riviera de Makarska. A ideia, claro, era presentear a nós blogueiros com mar azul, sol brilhante, calor pelo corpo e brisa marítima. Mas como nem sempre São Pedro lê o script, o que ganhamos foi uma chuva gelada assim que estávamos distantes demais do pier para mudar de ideia.

O jeito foi apertar toda a equipe de 14 pessoas na cabinezinha do barco. E o que os croatas fazem quando estão presos num espaço ínfimo? Bebem e cantam. Logo um achou um violão na cabine, o capitão trouxe para nós garrafas de vinho e rakia, um prato de queijo e estava montada a festa. De início nosso violonista tocou sucessos da música pop norte-americana para que todos nós nos sentíssemos incluídos. Mas não demorou muito e o coração xadrez falou mais alto. Daí eles começaram a cantar músicas do repertório tradicional deles. E, devo dizer, foi muito mais legal que qualquer música pop. A cantoria é feita com um gosto que até quem não fala croata e não faz ideia do que se trata quer se unir ao coro. O capitão resolveu ficar dando volta pela riviera e ninguém se importava. Podia estar uma chuva gélida do lado de fora do barco; lá dentro, a alegria deixava todo mundo mais quentinho.

No dia seguinte, em mais uma visita a uma vinícola, fomos surpreendidos por um grupo de seis homens vestidos em trajes tradicionais. Devo dizer que eu tenho uma certa má vontade com pessoas que se fantasiam com trajes típicos, não importa de que lugar ou era. Minha expectativa era de que fosse um grupo tosco dançador de algum tipo de tarantela croata como já tive que presenciar nas festas típicas ao redor de Campinas.

O que foi apresentado a nós estrangeiros foi a maravilhosa tradição da klapa. A palavra se traduz como “grupo de amigos”. Consiste basicamente de canções cantadas a capella por quatro ou mais pessoas em harmonias incríveis. Ao longo dos últimos séculos, os mineiros da Croácia se reuniram nas tavernas depois de aterradores dias de trabalho subterrâneo para compor, cantar e compartilhar canções de amor, de mar, de pátria e de bebida. São canções lindas; não tem coração gelado que resista às emoções acostumadas a combater os túneis. Essa é uma tradição que continua viva e se desenvolvendo: novas músicas são compostas, e os grupos não são de vovozinhos renitentes ou crianças vitimizadas por seus pais, mas sim de homens no auge da vida felizes por soltar a voz. Quem cantou pra gente foi o incrível grupo Basca:

Od Kad Te Znam

Ruza Crvena

O final do dia seguinte ainda reservava outra surpresa: um grupo feminino de klapa, uma adição recente às melodias tradicionais. No alto de um monte perto da cidade de Drvenik fomos recebidos por um grupo de seis mulheres em trajes típicos, as cantoras do grupo Viole. Aprendemos que sim, as mulheres também cantam klapa; sim, muitas das músicas são as mesmas; não, elas não costumam cantar junto com os homens. Elas apresentaram músicas mais felizes, talvez porque as mulheres estão acostumadas a fazer menos drama. Eram igualmente um abraço para os ouvidos:

Mare Moja

Golubice Bila

Moj Brodicu

U Polju Se Mala

Queridos croatas, vocês têm muitas coisas incríveis construídas e descobertas. Mas o que vocês têm para mostrar de melhor sempre será vocês mesmos.

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