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Monte de Castelo

Os bons modos croatas exigem que se trate o visitante como aquela avó que acha que os pais não alimentam os netos direito: você sempre pode estar mais gordo, rosado e bonito. E portanto, antes de ir embora, tem que comer só mais um pouquinho. Não vai fazer essa desfeita, vai?

O problema, claro, começa quando você é uma figura que está numa gincana de seis a oito locais por dia, e todos os locais querem te tratar com carinho porque tem uma equipe de TV junto contigo e quem sabe assim eles aparecem mais em seja o que for que você está gravando. A hospitalidade usual fica ampliada e multiplicada – e quem sai prejudicado nessa história são sua circuferência abdominal e seu estômago.

Ninguém deixa você ir embora sem comer um bolinho, tomar um licorzinho, fazer um lanchinho, provar um queijinho ou seja o que for. E daí, quando chega a hora do almoço, obrigatoriamente nos submetem a uma refeição com sopa, salada, carne, acompanhamento, sobremesa, tudo carregado nos lipídios. Mais um vinhozinho e alguns copinhos de rakia, em quantos sabores houver disponíveis.

O resultado: hora de dormir, Marcio Caparica à meia-noite sentindo dos dez quilos de comida ingeridos ao longo do dia lutando para serem digeridos esôfago acima. Pra quem precisa dormir no dia seguinte para continuar a corrida maluca pelo território croata, nada pior. Lição do dia: manter a dieta por conta própria e só aceitar um quarto de tudo que oferecerem ao longo do dia. Não se corre o risco de passar fome sendo um turista televisado na Croácia.

O itinerário de hoje foi pelo condado de Zagreb (não confundir com a cidade), pulando de castelo em castelo:

Novi Dvori

Um jazigo de pedra, de dois andares, cuja porta principal é cercada por uma escadaria de cada lado.

O jazigo da família do ban, depois da mansão e antes do golfe.

Nossa primeira parada na cidade de Zaprešić foi o parque de Novi Dvori (Novo Palácio), que um dia foi a propriedade do famoso Ban Josip Jelačić, o mesmo da praça de ontem. Logo na entrada há uma construção medieval sob proteção nível zero (ou seja, altíssima) pela Unesco – o que não impediu que sua porta fosse carinhosamente pixada por coraçõezinhos. Foi nossa oportunidade de encontrar Duvor Gobac, punk-rocker croata que nem eu nem você jamais ouviu falar mais gordo, mas que é a sensação do rock-coroa aqui na Croácia, já tendo tocado com Iggy Pop e com os Ramones. Ele estava lá madrugando com a gente para tentar promover a exposição de seus desenhos  que estava acontecendo dentro do prédio medieval. Algo me diz que a construção vai ganhar mais algumas pixações nas próximas semanas.

Ao fundo do parque, o “castelo” era a enorme mansão em que o Ban Jelačić morou com a família até morrer. Bem bonita e conservada, ficou sob propriedade da família até que a última filha dele morreu e deixou tudo para o governo. O parque ainda tem uma capelinha-jazigo na frente da qual é chiquérrimo se casar hoje em dia, e um jazigo onde todos os defuntos da família Jelačić estão empilhados. Quem se cansar das atividades fúnebres, pode caminhar mais um pouco e encontrar um lindo campo de golfe.

Castelo Lužnica

Uma mansão de dois andares em forma de S, com uma torre cônica em uma das arestas, e um grande jardim em frente.

O castelo que virou centro espiritual e de convenções

Freiras também aposentam, e quando isso acontece dependem de outras freiras que tomem conta delas. No caso da congregação das Irmãs de Caridade de S. Vicente de Paula, elas vão para  o Lužnica Dvorac, outra mansão-castelo que foi construído originalmente para abrigar a aristocracia do século XVIII e suas festanças, e passou de mão em mão até ser comprado pelas Irmãs em 1925, quando foi transformado em convento. Há poucos anos elas receberam auxílio para construir outro edifício no terreno, mais moderninho e adequado para as necessidades das aposentadas, e agora elas transformaram a mansão em “centro educacional-espiritual”, alugado para convenções, eventos, retiros e o que mais for.

A construção é linda, os jardins, superbem preservados, e se você tiver a sorte de pegar um tour com a irmã Berislava, ela vai te contar sobre as transformações por que o prédio passou, relatar curiosidades históricas das estátuas e documentos preservados no local, e quem sabe até oferecer chás e ervas plantadas lá mesmo no terreno do castelo.

Castelo Januševec

Uma mansão de dois andares com uma varanda de três colunas projetada à frente do resto sobre sua entrada principal, no centro.

O principal mérito desse castelo: essas colunas na frente. E o cão.

Outro castelo-que-não-é-castelo. Supostamente digno de ser visto por ser uma construção neoclássica linda (?) com fachada colunada, na verdade do jeito que está hoje não vale a viagem. No momento é onde está funcionando o Arquivo Federal da Croácia. Seu zelador aparentemente trata o edifício como se fosse sua casa: encheu a entrada de vasos de planta, construiu uma estufa para plantar tomate logo em frente da fachada, instalou uma quadra de basquete ao lado e deixa seu cão preso na casinha ali do lado. O cão é fofo, o resto é dispensável.

Castelo Laduc

Uma mansão de dois andares, telhado baixo e jardim amplo em frente.

Certamente entre os orfanatos mais elegantes do mundo…

Mansões históricas não podem ficar vazias se querem se manter apresentáveis. O destino do castelo Laduc, depois que aqueles que o construíram cheio de luxo e riqueza foram dessa para a melhor, foi se tornar um orfanato. A casa é linda, e o atrativo arquitetônico são seus tetos pintados – interessantes, mas nada assim imperdível. Fomos recebidos por uma funcionária educadora do orfanato, com aquela cara de cansaço perene típica de quem lida com situações tristes todos os dias. Ela exibiu a casa o melhor que pôde, mas obviamente em consideração às crianças não se pode visitar seus quartos, tirar fotos lá dentro ou fazer qualquer coisa que perturbe a ordem da vida dos pimpolhos, já tão difícil. Se você tiver a intenção de voluntariar, doar dinheiro ou ajudar de qualquer maneira, visite. Se for lá só olhar, ajuda mais ficando longe.

Castelo Zelingrad

Ruínas de um muro em pedra no alto de um barranco.

Finalmente, algo próximo do que minha adolescência RPGista imaginava.

Finalmente um castelo como aquele que a gente imagina quando faz desenho de castelo na infância: todo de pedra, medieval mesmo. Apesar de não ser realmente um castelo, mas sim um forte. Não se sabe exatamente quando foi construído, mas já era mencionado em documentos datados de 1295. Suas ruínas ainda resistem em grande parte, dando uma boa ideia de como eram as construções na Idade Média. Minhas memórias afetivas de jogador de RPG entraram em modo turbo. Para ajudar, os membros dos Cavaleiros de Zelingrad nos aguardavam fantasiados de guardas e cavaleiros medievais. Coisa linda esse nível de dedicação (e nerdice) que faz alguém reproduzir vestuário, armaduras e armas para reproduzir combates do meio do milênio passado. Dá pra ver que embates bonitos com espada e armadura, só em filme mesmo. Mas não há fantasia que resista à contemporaneidade: ao anoitecer, cavaleiros e damas em perigo puxam os celulares, acendem cigarros e colocam óculos.

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