plitvcka

Naturalmente impressionante

A lateral de um edifícil de quatro andares. Na metade esquerda a parede tem uma flieira vertical de janelas. Na metade direita, uma superfície de concreto cru está repleta de buracos de bala.

Três andares de balas nas paredes

Volta e meia as consequências dos conflitos pela independência da Croácia entre 1991 e 1995 aparecem das maneiras mais inusitadas. Quando conversávamos com uma das nossas guias hoje a caminho do mirante, perguntamos o que o pessoal está achando da Croácia ter entrado na União Europeia. “Ah, tem muita, muita gente que está bem revoltado com isso”, ela respondeu. Temor por entrar no bloco quando o euro está na linha do pênalti? Não. “A gente já foi ‘parte de’ algo por muito tempo. Parte da Iugoslávia, do império Austro-Húngaro… Mal conseguimos recuperar nossa independência e nos jogam dentro de outro grupo. Que erro. País esperto mesmo é a Suíça, que nunca faz parte de nada.”

É bastante comum encontrar monumentos celebrando a independência de uma maneira ou de outra. Os croatas também adoram hastear sua bandeira, um hábito saudável que os brasileiros não desenvolveram. Mas o que te faz parar pra pensar mesmo são as paredes. Lá está você batendo perna e pensando como é grave o fato de ter esquecido o cortador de unha no Brasil, como é que você vai fazer já que não rói unha, e você se depara com uma parede cheia de buracos de bala. De alto a baixo, do começo ao fim. E depois que você treina o olhar, você passa a reparar que essas paredes fuziladas são até bem comuns; não é todo mundo que conseguiu a grana para restaurar suas paredes nos últimos vinte anos.

Agora vamos voltar para nossas vidas alienadas em que não se corre o risco de levar tiro e apreciar as maravilhas naturais que visitamos hoje:

Nacionalni Park Plitvčka Jezera

Entre montanhas rochosas cobertas de vegetação, lagos se espalham no fundo do vale. Uma comprida cachoeira está na parte direita do vale.

A vista embasbacadora da entrada do Parque Nacional Plitvčka Jezera

É realmente incrível que esse parque não seja, assim, imensamente e mundialmente famoso, porque é um daqueles lugares únicos dignos de todos os cartões postais.

O Parque Nacional de Plitvča Jezera (Lagos de Plitvice) foi fundado em 1949 para proteger a área em que se encontram 16 lagos interligados por quedas d’água no meio das montanhas. Uma série de fenômenos naturais se dão as mãos e sambam na cara do resto do mundo para que os turistas tirem foto na frente das águas mais azuis e límpidas jamais vistas. Fontes subterrâneas alimentam os lagos, garantindo que a água já chegue filtradinha. Um alto nível de minerais no solo causa uma calcificação-relâmpago (em termos de natureza, claro) dos elementos orgânicos dos lagos, impedindo que os restos da fauna e flora locais turvem a água.

Também ajuda que a Croácia não se tornou um porco capitalista no início do século, e assim nenhum ricaço construiu sua casa de campo num lugar tão limpo nem jogou seu esgoto nos lagos porque afinal unzinho só não faz diferença. Porque é assim, unzinho não faz diferença, outros unzinhos se juntam ao primeiro e quando você vê a coisa linda acaba como o Rio de Janeiro hoje.

Dois patos pretos nadam sobre a superfície da água esverdeada. A água é tão límpida que pode-se ver as pernas dos patos e os peixes logo abaixo.

Os felizes bichinhos que vivem na água mais linda que existe

Existem caminhos de pedra e madeira ao redor de todas as lagoas, então o passeio é tranquilo e agradável. Quando a lagoa foi batizada por conta de algum figurão que protegeu o parque de alguma maneira, há um pequeno monumento para homenageá-lo. Mas a maioria dos lagos recebeu o nome por conta de alguém que morreu afogado nele no passado e os guias querem esquecer desse fato, então não há uma plaquinha que seja para lembrar quem virou comida de peixe em águas tão lindas.

Pećinski park Grabovača

Um deck de rochas se debruça sobre o vale. Uma cerca de madeira circunda o deck; um telescópio aponta para o horizonte. Várias montanhas cortam o horizonte nublado, e o rio Lika corre ao longe.

A vista do mirante no alto do monte Gabrovača.

Outra maravilha natural que só existe na Croácia se encontra no Parque de Cavernas Grabovača. Próximo da cidade de Gospić, o parque é bonito, organizado, com trilhas bem sinalizadas que levam até um mirante no alto do monte Grabovača, de onde se tem uma vista esplêndida do vale do rio Lika logo ao lado.

Mas o que impressiona de verdade são as cavernas de Samograd, sob o monte Grabovača. Quem sabe você já entrou em alguma caverna na vida. Então vou colocar em escala para você: Samograd está para essa caverna da sua imaginação assim como Versailles está para o apartamento apertadinho em que você mora. A entrada já te deixa embasbacado, e quanto mais você entra nos 240 m de caverna, mais atônito você fica. Os salões da caverna variam entre 25 e 30 metros (ou seja, já pra enfiar um prédio de cinco andares lá dentro). Afastado da luz solar desde antes do australopiteco criar vergonha na cara e começar a virar Homo sapiens, o ambiente se mantém eternamente entre 8 e 5 graus centígrados. E tudo recebe uma iluminação dramática que faz você se sentir ainda mais pequenininho.

Por onde quer que se olhe tem estalactites e estalagmites. A mais alta tem quase dois metros de altura – e, segundo os guias do parque, leva 50 anos para uma estalagmite crescer um milímetro, então você pode fazer as contas. Essas estalagmites são cobertas de kamenica (formações tão únicas e croatas que o nome não tem tradução, já que não acontecem em outro lugar do planeta): ondinhas de cristais brilhantes repletas de “pérolas” sobre os vãos. Outra confluência de solo, água, temperatura, altura e magia inexistente em qualquer outro ponto do globo.

Um salão gigantesco de pelo menos 25 metros de altura. Longas estalactites no alto, várias estalagmites abaixo. Uma escada leva para o próximo nível da caverna. Luzes estrategicamente colocadas acentuam as formações rochosas.

A iluminação dramática deixa a caverna ainda mais iimpressionante.

Grande parte da foto é o negro da caverna. Uma figurinha no meio da foto se coloca na frente dos holofotes. A luz apontada para o teto logo acima dá uma ideia da imensidão da caverna.

Lá ao longe, no meio, estou eu.

Esse é um dos lugares em que o tempo para, tanto que uma inscrição feitas por soldados em 1835 permanece lá como se tivesse sido feita ontem. Infelizmente, há poucos anos, outras pessoas ganharam o troféu joinha ao entrar na caverna desacompanhados, levarem algumas estalagmites de lembrança e deixarem seus nominhos lá também para toda a eternidade. Desde então, construíram um portão no acesso para a caverna, e só se entra lá com um guarda do parque.

No vão de uma estalagmite vê-se seis nomes um sobre os outros: Catalino, Jkarich, Belsich, Fristas, Wajurak e Komjmus. Ao lado, o ano: 1835.

A pixação de 178 anos atrás se torna artefato histórico.

A guia do parque estica o braço para tocar as folhas das plantas a seu redor. No fim do caminho de terra, descendo alguns degras, uma parede de pedra barra o caminho. Um portão de grade permite a passagem pela parede.

O portão para conter os impulsos alheios de assinar as paredes.

 

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