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Raízes ancestrais

Uma semana rodando a Croácia. Tempo o suficiente para eu começar a jogar Bingo do Museu. É assim: você entra no museu histórico croata e se dá um ponto para cada um dos seguintes itens: ânfora romana, ornamentos romanos, placa em glagolítico, documento em glagolítico, busto de poeta, cama camponesa, berço camponês, manequim de vestuário típico (homem), manequim de vestuário típico (mulher), tear. Se você completa os 10 pontos você se dá um tapinha nas costas, sacode a sensação de de jà vu e se lembra que pelo menos cada cidadezinha aqui tem um museu, enquanto o Brasil fica feliz se a cidade tem coreto.

Tenho a impressão que por conta de terem estado sempre sob o domínio de uma nação ou outra, os croatas agora estão num movimento coletivo de tentar restabelecer sua história e assim reafirmar que sempre foram um país, apenas estavam soterrados pela tirania alheia. Então onde quer que levem a nós “estrelas”, nossos anfitriões fazem questão de mostrar qualquer igrejinha com mais de 100 anos que eles têm, ruínas de seja lá o que for que tiver em volta (romano ou medieval) e o indefectível museuzinho histórico para o meu bingo.

Três fileiras de blocos de granito de tamanho regular se espalham sobre um gramado. Na face virada para a câmera, cada um exibe o rosto esculpido em baixo-relevo de uma figura histórica da Croácia.

Os blocos de granito esculpidos da igreja de Sv. Trojstva: muito mais interessantes que a própria igreja

Uma atitude digna, mas que deixaria marqueteiros chocados em Cristo. Porque eles preferem frisar suas velharias todas meio iguais e descartam sumariamente outras coisas que atrairiam muito mais gente. Te puxam por três quilômetros de praia ensolarada com água azul para que você veja… uma capela caída de 800 anos. Outro dia a guia em Otocac passou vinte minutos falando sobre uma igreja interditada que não tinha nada que não se encontrasse também numa igreja em Limeira. Logo ao lado havia fileiras de blocos de granito com retratos de pessoas esculpidos em baixo-relevo nas laterais, em diversos estilos.

“O que é isso do lado da igreja? Túmulos?”, eu perguntei, todo inconveniente.

“Aquilo ali?”, ela olhou com desdém. “Não é nada. São figuras de personalidades históricas da Croácia. Pode ver que tem um caracter glagolítico em cima de cada bloco. Cada ano encomendam um ou dois para um escultor diferente ao redor do mundo. Mas é novo, faz só uns 10 anos. Agora, essa igreja tem 90 anos e…”

A igreja ficou lá desprezada enquanto eu tirava fotos das esculturas.

Mas felizmente hoje a gente foi ver algumas velharias bem mais interessantes.

Lunijska Maslinada

Em primeiro plano, uma azeitona solitária ainda pendurada nem seu galho, com quatro folhas logo acima. No segundo plano, o tronco da oliveira a que pertence esse galho, retorcido pelos séculos. Ao fundo, algumas outras oliveiras se levantam sobre o chão pedregoso.

Azeitona não nasce no vidro.

Nessa minha vida de garoto urbano, a sardinha já nasce na lata e a azeitona brota dentro do vidro. Não chego no extremo de uma amiga americana, que achava que a azeitona já crescia com a pimenta dentro, nunca tinha visto um caroço de azeitona na vida e quase quebrou os dentes ao comer azeitona que nem pipoca no Brasil. Mas já visitei pomares no passado. Agora, uma oliveira de verdade, nunca.

Nosso programa hoje era visitar a ilha de Pag, e a primeira parada foi o Jardim de Oliveiras de Lun.
Esse pomar antiquíssimo teve início quando os romanos fizeram sua primeira colônia aqui, no primeiro século antes de Cristo. Por mais de dois mil anos só se chegava na ilha por barco ou lombo de mula, um isolamento que felizmente encheu o progresso e a civilização de preguiça. E assim oliveiras que viram reinos se erguerem e caírem sobrevivem até hoje, agarradas pelas unhas nesse terreno inóspito. A oliveira mais antiga do jardim tem mais de 1600 anos. Mas continua produzindo azeitonas como um brotinho de 1200.

Marcio no centro da foto, pisando numa estrada de terra, na sobra da oliveira antiga à esquerda da foto. À direita da imagem, do outro lado da estrada de terra, um muro baixo de pedras acompanha o caminho.

Eu ao lado da oliveira de 1600 anos, ponderando como a língua portuguesa evita as aliterações “óleo de oliva” e “azeite de azeitona”.

Rimski Vodovod

Um túnel estreito e comprido, iluminado na parte superior, se estende até se perder de vista. Suas paredes são de rocha levemente irregular.

Tigris tubi et coagmenta

Não muito longe dali, na cidade de Novalja, tem outro museu que seria apenas mais um na fieira de museus quase iguais no nosso tour, não fosse por um tesouro escondido: um aqueduto romano intacto.

Os romanos não tinham como empurrar água ladeira acima, então seus aquedutos dependiam da força da gravidade mesmo. E como eles faziam para levar a água de um lado do morro para o outro? Se for tomar esse como exemplo, faziam um túnel atravessando o monte, com uma inclinação supersuave que fizesse a água escorrer da fonte até seu destino. De tanto em tanto faziam túneis verticalmente transversais para ventilação. Cavar verticalmente no começo da encosta até que não é difícil, o problema é quando se tem que fazer um furo lá do alto do monte até láááááá embaixo onde está o aqueduto. Pois os romanos faziam, sem nem ter a poção do Asterix. E tão bem que resiste até hoje.

No fundo do Gradski Muzej Novalja (Museu da Cidade de Novalja), descendo um lance de escada, está uma abertura para uma das extremidades do aqueduto. É obra recente: o túnel passou os milênios obstruído por entulho. Mas agora ele está todo limpinho e iluminado, cheio de placas explicativas, pronto pra quem quiser ver. E depois de ver o túnel, dá pra dar uma esticadinha para alguma das praias da ilha de Pag!

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