Zid Boli

Zagreb calling

Pois então que começou a brincadeira de verdade. Filmagem, amiguinhos, não é bolinho. Temos dois cameramen mais um rapaz com microfone (micboy?), cuja única função é seguir a gente da hora que a gente sai do hotel, às sete e meia da manhã, até o encerramento dos trabalhos, às sete da noite.

Mas não se segue apenas. A cada quinze minutos a apresentadora Ashley precisa fazer um take para explicar  onde estamos e fazer perguntas que sirvam de escada para que o guia conte a história do local para a câmera – muitas vezes repetindo o que tinha acabado de falar pra gente em off. E, antes de cada take, bater palma uma vez para sincronizar o som na edição. Todo trabalho perde o glamour quando se começa a ver os bastidores.

Outra coisa importantíssima: cronograma! Eles têm que garantir que todas as locações vão ser feitas naquele dia  no devido horário, então não há moleza de você olhar pro lado ou desviar do caminho: a gente vai pro cemitério e daí pro centro histórico e daí pra catedral e daí pro mercado e daí pro museu da cidade e daí pra outra igreja e daí pra torre bem a tempo de chegar na hora em que dão tiro de canhão e você leva susto e daí de volta pro hotel pra contar como ele é histórico. Daí vocês podem almoçar.

Assim que chegamos no primeiro compromisso da tarde, notei a falta do celular que tinham me dado. Sumiu-se. Eu tinha deixado ele carregando no quarto durante o almoço, fui lá escovar os dentes e buscá-lo, tenho certeza que saí com ele… Mas nem sinal. Deve ter caído do meu bolso no estacionamento do hotel. O pessoal do programa até levou numa boa, mas eu morri de raiva de mim. Agora estou na neurose de não perder outro.

Nossas atividades do dia:

Cemitério de Mirogoj

Tijjolos com nomes de vítimas escritos em Zid Boli

Pedaço do muro original no novo monumento: cada nome, uma vítima

O cemitério mais tradicional e mais fino da Croácia. Enorme e antigo, tem os túmulos de várias das principais figuras importantes dos últimos duzentos anos da Croácia. É ideal pra quem aprecia aquela mistura de arquitetura, estatuário e morbidez típica dos melhores cemitérios. Dois túmulos se destacam: um mausoléu gigante para Franjo Tuđman, o primeiro presidente croata; e o túmulo de Dražen Petrović, jogador de basquete, ídolo de multidões (croatas), falecido ainda jovem.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi o Zid Boli, o Muro do Sofrimento. Durante os conflitos pela independência, os croatas resolveram chamar a atenção para as vítimas dos confrontos construindo um muro na frente do prédio das Nações Unidas em Zagreb, com o nome de cada falecido escrito em cada tijolo. Depois que a luta chegou ao fim, transferiram o muro original para o cemitério, e construíram um monumento em mármore negro com ainda mais nomes gravados em suas paredes. Uma chama permanece acesa em seu centro.

Centro Histórico

Balança com vários pequenos pesos em um prato, com o outro prato uma posição superior, vazio

No mercado de Zagreb, ainda se pesam as mercadorias como antigamente

O centro de Zagreb é um barato, tanta coisa pra ver, tudo tão bonitinho, tudo tão pertinho! Das minhas caminhadas de ontem, deu pra perceber que o roteiro que o programa traçou é bem bolado.

Ponto de partida: Praça Ban Jelačić, a praça principal, onde estão vários bancos, lojas, linhas de bonde e a estátua do vice-rei (ban) Jelačić (daí o nome da praça), com ele todo na estica montado a cavalo, apontando a espada para frente. Consta que originalmente ele apontava para a fronteira com a Turquia, desafeto croata na época; durante a época da Iugoslávia ela foi desmontada e removida; quando a Croácia se tornou independente, retornaram a figura a sua posição original, mas como a Turquiia era amiguinha, a colocaram apontando para outro lado. Na praça ainda alimentam os pombos com migalhas de pão, garantindo a proliferação desses ratinhos voadores.

Daí para a catedral da cidade, recém-restaurada; o mercado municipal (Dolac), onde se acha todo tipo de verdura e ainda se usa balanças das antigas; o portal medieval (Kamenita vrata), único ainda existente do muro medieval da cidade, onde também se encontra um santuário da Virgem Maria superpopular.

Um busto de Penkala, com seu ouvido esquerdo exageradamente grande segurando uma caneta-tinteiro

Estátua-caricatura do Penkala, inventor da caneta-tinteiro

No Museu da Cidade, fomos vítimas de um tour  por uma guia afobada que, nervosa pela presença das câmeras, comprimiu um tour de cinco horas por todo museu, digno de umas cinco horas, em trinta minutos. Ela terminou arfante a nós, zonzos. Quem puder, visite com calma que o lugar merece. Da maratona histórica, só consegui me divertir com o fato de que o inventor da caneta tinteiro e do lápis foi um croata chamado Penkala, razão por que caneta em inglês chama-se pen.

Fora do museu, ladeira acima, a igreja de São Marcos, com seu telhadinho cujas telhas formam um mosaico dos brasões nacionais, entre os edifícios do Parlamento e da presidência croatas; a rua em frente leva para um monumento em memória de Nikola Tesla (esse lindo) e o Museu dos Relacionamentos Desfeitos, até chegar numa torre histórica que, ao meio-dia, dá um tiro de canhão e quase te mata do coração. Pode-se voltar à parte baixa da cidade num bondinho ao lado, ou descer a pé – me fizeram apostar corrida contra o bonde, e, devo dizer, ganhei a disputa fácil.

Museu Técnico

À tarde, já desoladamente sem celular, me levaram para o Museu Técnico. Aparentemente há várias engenharias curiosas para se ver lá, mas a intenção era nos mostrar réplicas de engenhocas de Nikola Tesla (esse vitaminado), plenamente funcionais, para o deleite de quem gosta de ver (e ouvir) eletricidade.

Centro Esportivo

No fim do dia, nos carregaram para o centro esportivo para utilizar a raia náutica. Organizado e limpinho como tudo em Zagreb. Pra quem quer praticar atividade física é bacana, do contrário não há muita razão para visitar – a não ser que você queira conferir a beleza dos(as) croatas sarados(as).

Medvedgrad

Marcio na frente de um dos muros de pedra de Medvedgrad

Eu, o castelo e o por-do-sol

Não muito fora de Zagreb está a torre de Medvedgrad, um forte medieval no alto das montanhas. Segundo nosso guia depois da independência havia a intenção de transformá-lo em algum tipo de museu da independência, mas o plano não foi em frente. Hoje a torre está meio abandonada; a escadaria que leva ao topo está sem luz elétrica, fazendo com que o turista tenha que encarar alguns lances de escada na escuridão total. A visão no topo vale o desafio: dá pra se ver toda Zagreb, um bom programa para o fim da tarde.

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